quarta-feira, 21 de abril de 2021

#18 - A VINGANÇA DE D. PEDRO (Antero de Figueiredo, 1866-1953)


 

Nos paços reais de Santarém, D. Pedro esperava, impaciente, a chegada dos fidalgos criminosos. Mais de uma vez o rei passeara pela cortina do nascente e subira à torre albarrã, alongando a aguçada e sôfrega vista por cima de Almeirim, das lezírias do Ribatejo -- para além, muito para além, para as bandas de Avis, de Barbacena, de Elvas, de Badajoz, em ânsia exasperada.

Uma tarde, chegaram os presos. D. Pedro, que os esperava, tinha comido de festa; mas, mal recebeu o aviso, levantou-se da mesa com a boca cheia, mastigando viandas, atirou-se pelas escadas abaixo e correu ao encontro deles, à praça, no meio do povo curioso que, sempre engrossando, numa atordoadora vozearia, os vinha seguindo desde a Ribeira. Álvaro Gonçalves e Pero Coelho chegavam exaustos, envelhecidos, rotos, cobertos de pó e adobadas as mãos e os pescoços com uma soga de boi. D. Pedro, não vendo o Pacheco, e sabendo, instantes depois, porque não vinha, mordeu os dedos de raiva; mas, voltando-se para os outros, depois de os mirar de alto a baixo, com olhar voluptuoso e sarcástico, logo principiou a cascalhar um diabólico riso de contentamento e de escárnio, muito enganzarado, às vezes ganindo, gesticulando em desordem, batendo nervosas palmas, saltando diante deles, fazendo torcidas piruetas, convulsamente, como se de súbito o agitasse um violento ataque do mal de São Vito. Queria falar e não podia. A voz pregava-se-lhe na garganta, e, com a boca escancarada e a face contraída, fazia esgares de doente e de saltimbanco.

Espantosa explosão de epiléptica alegria a desse apaixonado coração vingativo que, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, durante anos, suspirou por esse delicioso momento de feroz revindita!

Em pé, cobertos de pó, sem coifa, com os saios esfarrapados, os pés peados e sangrentos, as mãos atadas atrás das costas, as caras terrosas e os cabelos embranquecidos, na cinta a escarcela vazia de dinheiro e de punhal; -- em pé, os fidalgos portugueses esperavam altivos, fitando sobranceiramente os olhos nos olhos do rei. D. Pedro, sempre a rir, numa agitação crescente, aproximou-se mais deles, pôs-lhes violentamente as mãos nos ombros, agarrou-os, sacudiu-os, e, com a cara em cima da cara, ora de um ora de outro, os olhos em fogo e em fúria, os dentes cerrados, silvou-lhe no auge da cólera:

-- Assassinos!

Depois, começou a fazer-lhes perguntas sobre perguntas, atropeladamente, desmanchadíssimo nos gestos e na voz, aos guinchos, cada vez mais gago, voltando-se ora para o Coelho, ora para o Gonçalves, abanando-os pelos ombros, com os nervosos puxões das suas mãos iradas:

-- Porque mataram Inês? Que conluios houve? Quem mais entrou na conjura? Quem mais? Que era que o rei meu pai tramava contra mim? Onde? Porquê? Matadores! Vamos! Quero saber quem ma matou! Os nomes? Os nomes?

E os fidalgos, em pé, firmes, brilhando nos seus olhos a luz galharda das convicções, olhavam o rei com supremo orgulho -- com a serenidade de quem está absolutamente certo de ter cumprido o seu dever; e, sempre cheios da mais nobre altivez, encaravam de alto no rei e não respondiam. Então, D. Pedro ordenou aos da escolta que os pusessem a tormentos, e ele próprio lhes torcia os braços, lhes pinçava a garganta com dedos de ferro, para os obrigar a articular palavras, a falar, a responder; e, cada vez mais enraivecido, com a boca cheia de espuma, repetia as perguntas, aos berros, esganiçado, cuspindo as palavras junto dos rostos, a babar-se, em arremetidas afrontantes, ameaçando-os com os punhos cerrados e trémulos de cólera, num estado de ira apoplética, em que os olhos inchados e rubros, rebolando nas pálpebras encarnadas, pareciam estoirar, e toda a sua figura prestes a explodir. Era um turbilhão! Uma só ideia absorvia o seu ser. O mundo era para ele aquela ideia. Mais nada sentia nem via. Se um trovão rebentasse nos seus ouvidos, não ouviria o som; se o queimassem com um ferro em brasa, não sentiria o fogo.

No atropelo com que falava, não concluía as frases. Atirava com as palavras:

-- Quem mais, quem mais?... Na conjura... Os nomes, os nomes!

Como nada conseguisse dos fidalgos, que, nobilíssimos, nem na morte denunciavam segredos, começou a ultrajá-los com palavras baixas -- as mais desabridas e injuriosas; e, tomando do tagante de pontas de ferro, que sempre trazia à cinta, azorragou com ele, de alto a baixo, a cara do Coelho, que, louco pela dor e pelo enxovalho, cresceu em infernal cólera para o rei, cobrindo-o de insultos:

-- Cobarde! Carniceiro de homens! Vilão ruim! Perjuro! Filho rebelde! Esterco de rei! Que a lepra da maldição te cubra! Algoz! Excomungado! Cobarde!

-- Cobarde, tu, cobardes vós, vilões, que vos não batestes comigo, um homem, cara a cara, cada um com as suas armas e a sua gente, como cavaleiros!

-- Gafo! Cobarde! Assassino! -- vociferava o Coelho.

-- É isto fidalguia?

E os outros, o Coelho e o Gonçalves, em coro, espumando ódio:

-- Vilão! Vilão!

(continua)

Antero de Figueiredo, D. Pedro e D. Inês (1913)

terça-feira, 23 de março de 2021

#17 - CONTO DO NATAL (João de Araújo Correia, 1899-1985)

 

Nesse ano, o Menino-Jesus, que o padre deu a beijar no dia de Natal, na arruinada capela do lugar, foi um menino vivo, um menino de carne e osso. Eu conto... A D. Rita de Cásia, governanta do Comendador Clarimundo, andava pejada, como sucedia em cada Inverno. Mais do que isso: desde o meado de Dezembro que a boa cuvilheira andava para cada hora. Na véspera do Natal, à noite, cansada de enganar o mundo com o ventre cilhado por demais, caiu à cama com uma dor de cruzes. Mandou chamar a parteira e vamos a isto: deitou cá fora um rapagão loiro e rosado como quem o fizera -- por enquanto não se diz nada... Nasceu o menino quando o galo cantou pela primeira vez. A parteira, uma comadrona mais velha do que a sé de Braga, já sabia que tinha de embrulhar o menino bem embrulhado num xale e levá-lo para longe do povo -- para o enjeitar. Era o costume. Fizera isto, de malhoada com a governanta, aí umas dez ou doze vezes. O Comendador era rico mas avarento. Dera de uma assentada muito dinheiro aos pobres quando era novo, mas isso era só para ser Comendador. Nunca mais gastou cinco réis em caridades e até jurou a si mesmo nunca se casar para não ter encargos de família. Portanto, se a governanta gravidada, isso era lá com ela. bastardos de portas dentro é que não queria. De maneira nenhuma! Tanto mais, que ele sabia guardar decoros à parentela: uma vergônteas, disseminadas pela província, aqui e acolá, duma velha haste apodrecida -- o tronco dos Mongroivas. Essas vergônteas lisonjeavam-no como parente honrado desde a pele até o tutano dos ossos. Queriam-lhe todos muito e à porfia. Visitavam-no amiúde, embora ele se esquecesse sempre de lhes oferecer um cálice de vinho ou uma pinga de chá. Iam-se embasbacados, mas, daí a uma semana ou duas, voltavam restabelecidos da encavacadela. Podia muito com eles o cheiro do ouro, que o Comendador exalava. Era uma atracção... Na noite de Natal, não lhes digo nada: vinham todos, porque o Comendador, nessa noite, dava-lhes mesa franca. Havia quem dissesse que poupava dinheiro na roda do ano, para o gastar numa ceia, com primos e primas. Era um esbanjar de iguarias, que só visto! Depois, tudo aquilo regado de bons vinhos: malvasia, alvarelhão e muito vinho velho para abafar os doces. Na memorável consoada a que me reporto, enquanto a governanta gemia, num cabo da casa, com as dores do parto, a parentela do Comendador, com o freio bem tirado, caía em peso na sala de jantar. Quem animava os novos a comer eram as velhas, pois diziam, com muita convicção e muita experiência: na noite de Natal, nada faz mal. Enquanto a governanta, num cabo da casa gemia com as dores do parto, os Mongroivas comiam e bebiam com fome e sede de três dias. É claro que nunca suspeitavam da gravidez da governanta. Como suspeitariam do parto? Quando souberam que ela estava muito doente, romperam a chorar -- ternura que muito agradou ao primo Comendador. Ai! aquela governanta era uma santa! No fim da ceia, rezaram pela saúde dela um Padre-Nosso  e uma Ave-Maria.

Quando a parteira, com a criança embrulhada no xale, saiu de casa para a enjeitar, a noite estava escura como devia ser o mundo antes de haver luz. A velha, pata não cair, coseu-se com as paredes das casas. Sem medo nenhum, porque era animosa de seu natural e andava afeita àqueles errores nocturnos, procurou, com aquele embrulho ao colo, uma das quatro saídas do povoado. Em certo sítio, não teve outro remédio senão abandonar o corrimão das paredes para atravessar um largo. Então é que foram elas! Começou a caminhar às cegas. Enterrou os pés em lama. Perdeu as chinelas. Deixou-as ficar sepultadas no lodo. Sentiu aluir-se-lhe o chão num rego de água. Gritou. Lembrando-se porém da enorme responsabilidade da sua missão secreta, amarfanhou a boca da concha cadavérica da mão. Foi-se arrastando. Como porém houvesse perdido de todo a tramontana, era-lhe difícil, se não impossível, sair do largo. Resolveu alijar o pacote de carne recém nascida e fugir até encontrar de novo uma parede que lhe servisse de guia. Neste momento deu fé de uma lumieira baça que saía dum buraco e se alastrava na escuridão como nódoa de azeite num vestido preto. Era a lâmpada do altar mor da capelinha do povo -- ruína que voltava para o largo uma das faces negras. A parteira sentiu refrigerar-lhe a alma à vista dessa luz. Viu nela um aviso de Deus para meditar um momento nas contas que lhe havia de prestar quando morresse. Encarou em si própria e sentiu-se repelente. Já todos os cantos lhe cheiravam à campa. No entanto, era ainda sem pejo  que aparava nas mãos encarquilhadas um menino caído do ventre de sua mãe para o expor, no limiar de qualquer porta, à mercê dos caprichos do tempo e da fortuna. Fazia isso pata ganhar dinheiro. Não podia ter amnistia celeste o acervo dos seus crimes. Que poderia tentar para que nosso senhor se condoesse dela? Naquela noite, em que Jesus nascia numas palhas, já com o perdão expresso nos lábios inocentes, que podia ela fazer para se mostrar arrependida de haver pecado tanto? Naquela hora, com aquele inocentinho ao colo, que boa acção poderia ela executar merecedora do reparo dum deus, que mal abria os olhos para abarcar num relance o mundo corrompido? Aproximou-se da capela, empurrou a carunchosa porta lateral, que dava para o largo, sumiu-se no templo, e depositou o menino sobre o degrau cimeiro dum altar, cujo tampo se abria todos os anos, pelo Natal, para mostrar às crianças atónitas e curiosas as maravilhas ingénuas do presépio.

-- Deixai estar, que o menino este ano há-de ser de carne e osso! -- exclamou a velhinha, já um pouco jubilosa da sua graça e contentíssima por haver praticado uma acção, que lhe parecia boa. Deixai estar, que este ano o menino há-se ser de carne e osso...

Quando a velhinha saiu da capela, já o céu se tinha esclarecido um tudo-nada. Tanto, que a pobre criatura encontrou as chinelas e atinou com o caminho que a levou à toca onde vivia. Felizmente, que não topou vivalma! Deitou-se e dormiu sossegada.

No dia seguinte, pela manhã cedo, à hora da missa, rezada na capelinha vetusta pelo mais desbocado e caritativo padre que a freguesia tem tido, sucedeu que o celebrante, com o menino ao colo e lágrimas na face de oitenta anos, vocifereva:

-- Este ano o Menino é de carne e osso. Beijai-o nos pezinhos, que já o fiz cristão. Quem sabe se algum de vós será o pai dele? Quem me dera apanhar aqui a cadela que o enjeitou!

Muito descomposto, o padre subiu ao altar e aí pregou um lindo sermão. Esmaltou-o de obscenidades, mas como chorava e tremia, todo o auditório de fiéis chorou e tremeu com ele. Ainda não tinha acabado, quando o Comendador saiu do seu canto e avançou para o arco-cruzeiro. Virado para o sacerdote, disse:

-- Esse menino é meu filho e a mãe é a minha governanta. Diante de Deus e dos homens, aqui prometo adoptar a criancinha e receber a mãe como legítima esposa.

Os parentes do Comendador fugiram como se os enxotassem à pedrada. O povo levou em charola o Comendador. Deu muitos vivas. O recém nascido, a quem hoje chama o Menino-Jesus fez da suas no regaço de todas as senhoras. Deram-lhe tanto beijo, que o iam desfazendo. O padre chegou a injuriá-las pela maneira sôfrega como disputavam o inocentinho. Uma delas, mulher espirituosa -- ainda vive --, voltou-se para ele e replicou-lhe:

-- Vossa Reverência, aos anos que conta e ao bem que tem feito, já estava no céu, se não fosse tão malcriado...

Nota: Extraído de Contos Bárbaros (1939) para uma antologia de Natal, sem indicação de organizador, Lisboa, Arcádia, 1978. Divertida história aldeã de arrependimento, em que dois velhos, uma curiosa  e um padre, surgem como instrumentos beatíficos da Graça divina.

 

terça-feira, 9 de março de 2021

#16 - A GRANDE SUBVERSÃO (Manuel Alegre, 1936)


 

Eram terríveis as rotinas, quase um rito iniciático, uma sagração. Havia o dia de esfregar a casa, o dia de lavar a roupa, o dia de arear os metais, o dia de tomar banho. E também o dia de pôr flores aos mortos. Havia ainda o dia do remédio para as bichas e o dia do pente fino, à cata dos piolhos apanhados na escola.

Nada mais contava senão o que estava determinado para ser o dia desse dia. As mulheres ficavam possessas de cada tarefa, como tangidas por uma demoníaca alucinação. Era uma coisa obscura, essencial, que desordenava e reordenava a casa, as horas, os hábitos, os próprios humores. Ninguém podia quebrar aquele ritmo, que girava, obsessivo, à volta da mãe. Os homens estavam de fora, mas ao mesmo tempo dentro. Tinham de resignar-se à ordem de batalha de cada dia.

O pai escapava-se, pelo menos tentava, ausentando-se para dentro de si, sentado na cadeia, alheio aos ruídos, até mesmo às perguntas. Era o seu modo de resistir à teia tecida pela aranha infernal da rotina. Sentado na cadeira, olhando para longe, procurava manter um espaço inacessível à invasão dos deveres que roíam, como toupeiras, as próprias fundações da casa. Não era fácil. Quando menos se esperava, as criadas começavam de repente a levantar os tapetes, a virar as cadeiras de pernas para o ar, a arredar os móveis, a bater furiosamente nos tapetes pendurados no quintal. O pai levantava-se, às vezes resignado, às vezes revoltado. Então saía, batia com a porta, sumia-se. E só voltava uns dias depois.

Eu tinha medo daquelas operações de desarrumação e esfrega. Temia que o pai partisse e nunca mais voltasse. Mas ele acabava sempre por regressar. Durante uns dias, o frenesim afrouxava, havia uma espécie de trégua. Mas logo recomeçava. Eram assim os hábitos. As casas da vila estavam sujeitas a uma ordem preestabelecida. As pratas tinham de brilhar, e os cobres, os talheres, os vidros das janelas, os cristais. Era mais importante do que o pendor dos homens para a divagação e o silêncio.

De certo modo não havia lugar para o pai nem para mim. Havia lugar para a nossa presença na ordem incessante dos ritos, a horas certas. Não para as cavalgadas solitárias que cada um tinha necessidade de fazer sem ser interrompido pela tarefa do dia. Mesmo que fosse o dia de receber visitas, com chá e bolos. Não tínhamos direito à nossa desordem interior, éramos prisioneiros de um espaço constantemente invadido por obrigações cujo sentido não podíamos entender. Não era por mal, era assim.

Eu tinha herdado do pai uma certa inclinação para a melancolia e para o outro lado das coisas. E talvez da mãe uma rebeldia que ela reprimia impondo-se e impondo-nos a ordem severa das rotinas.

Por isso comecei muito cedo a subversão interna: recusando o remédio das bichas, levantando as saias às criadas, jogando furiosamente o pião no chão recém-encerado, transformando os cobres e as pratas em alvos da espingarda de pressão de ar que o pai me tinha dado quando fiz a terceira classe, talvez com a secreta esperança de que eu começasse a disparar contra a ordem estabelecida dentro da casa.

E vieram as grandes cenas, os castigos, as lágrimas da mãe incapaz de dominar aquela insurreição que lentamente subvertia tudo. Eu crescia contra os ritos. E os ritos começaram a ceder. Não que a mãe capitulasse; era, por assim dizer, um reequilíbrio de forças dentro da casa. Ou talvez o prenúncio duma nova era contra a modorra que reinava no país, nas casas, nos silêncios dos pais sentados nas suas cadeiras, desistentes, rendidos. É certo que se ouvia a BBC, à noite, depois do jantar. Recordo sobretudo uma frase que para sempre me alvoroçou: "O homem tinha os pés inchados, estava morto." Por vezes o pai comovia-se, levantava-se e dia: Viva a Inglaterra. E eu sentia um tambor dentro de mim. Mas ele voltava a sentar-se, e nada mais acontecia.

As horas, os hábitos e as rotinas nada podiam contra o ritmo novo que irrompia dentro de mim. Foi primeiro uma espécie de delírio, quase uma alucinação. Eu acordava aos berros a meio da noite e começava a cantar uma canção sem nexo. Outras vezes desatava aos saltos e às cambalhotas e só parava exausto a chorar, nos braços da mãe, aflita, derrotada, quase esquecida do seu pequeno império de obrigações quotidianas.

Até que veio aquela estranha e súbita sensação de morte iminente: um frio na nuca, um arrepio, o mundo a desvanecer-se e eu a cair para dentro de um buraco negro. Era preciso que alguém me agarrasse e me prendesse as mãos com força nas suas mãos. A mãe teve de passar dias e noites junto de mim, a mão dela segurando a minha, sob pena de eu me desprender e cair sabe-se lá para onde.

Talvez eu tenha estado muito perto da morte. Nenhum médico o soube explicar. Nem sequer o espiritista que um dia me trouxeram, às escondidas do pai, já quase em desespero de causa. Talvez eu estivesse possesso de forças indomáveis. O certo é que as rotinas foram perdendo o seu domínio naquela casa. A mãe passou a ocupar-se mais de mim e menos dos seus titânicos deveres. O pai recuperou o espaço há muito perdido. Uma harmonia difícil, quase perigosa, subverteu os hábitos, as horas, os humores. Não direi que era a felicidade; era outro ritmo, a voz do sangue contra a ordem cega das coisas.

Pouco a pouco deixei de sentir aquele buraco enorme ao pé de mim. Estava de volta. Curiosamente, foi no fim da guerra. Talvez tenha sido coincidência, talvez não. Era um dia de Maio, sentia-se lá fora a festa, os foguetes, os risos. O pai tinha lágrimas nos olhos, ia à varanda e não se continha: Viva a Inglaterra. Agora com toda a força. E subitamente eu estava de volta.

Fiz então uma festa à mãe, sorri e levantei-me. Um melro cantava no jardim. E eu sentia uma espécie de assobio por dentro. Era um ritmo desconhecido, palavras, imagens. Algo que cantava e me chamava sem eu saber porquê, para uma página aberta. Ou talvez lá para fora: para o Sul, para o Sul.

Nota: Apesar de arrolado num livro de contos, estamos perante uma rememoração poética de episódios domésticos da infância. Um retrato de uma pequena aristocracia / burguesia provincial na primeira metade da década de 1940, com o marcado papel matriarcal intramuros, e o despontar de uma vocação poética anunciada por aquele assobio por dentro.

O Homem do País Azul (1989); 7.ª ed., Lisboa, 2009




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

#15 - UM PEQUENO ROMANCE (Conde de Arnoso, 1855-1911)


 

«A quem logo de manhã cedo em Vizela vai para o banho, não pode passar despercebida uma rapariga dos seus dezoito anos mal contados, que ali adiante à esquina da botica, sentada no granito do passeio, vende chapéus de palha, que ela própria, num labor incessante continuamente fabrica. Nesse pequeno e animado recanto, onde outras mulheres vendem em redondos açafates saborosas donas Joaquinas -- afamadas pêras do Douro -- e em cestos, forrados de brancas toalhas de grosso linho, alvo pão de trigo, é a delicada figura da rapariguita dos chapéus, que, com o seu ar de uma melancolia estranha, destaca pelo contraste do seu calmo sossego com a grita azafamada das vendedeiras em redor.

Com o molho das palhas de centeio humedecidas, entalado debaixo do braço esquerdo, vai compondo sem desviar os olhos do trabalho, a comprida trança de onze pernas, que achatada entre os dedos, se lhe vai enrolando no braço, à medida que vai crescendo. Enquadra-lhe a perfeita oval do rosto um lenço de chita amarelo e desbotado; os cabelos louros e crespos, acendem, com os seus fulvos tons de oiro vivo, uns restos de frescura na passada cor do lenço; é pálida, de uma palidez doentia, que nos faz pensar na morte escura; os seus olhos verdes e claros, brilham frouxamente do fundo das pisadas olheiras que os cavam; o colete minhoto de cotim, sem barbas, aperta-lhe carinhosamente o busto fino, pondo em evidência, sob a camisa de estopa, o tímido relevo gracioso dos seios virginais.

Junto a si, sobre o pequeno e tosco banco de madeira, tem a alta ruma dos chapéus já feitos.

Se um freguês se acerca dela, ergue então os lindos olhos pisados, e só interrompe a sua trança para receber na palma da mão os magros cobres por que vende os seus chapéus.

À tarde, quando esse recanto mais se anima e as doceiras chegam com os tabuleiros de rebuçados, aparece o dentista da aldeia, que é ao mesmo tempo pedicuro,, com o seu rosário de dentes passado a tiracolo, abancando também ao lado, dispondo sobre uma velha mesa de cozinha uma cadeira de pau enfraldada em paninho vermelho, sobre que destacam, enfileirados sobre um quadrado de cartão, nojentos calos fenomenais, extirpados a gretados pés de lavradores em vez da rapariga é então a mãe, envelhecida pelos rudes trabalhos do campo, que ocupa o seu lugar.

A filha foge talvez ao reboliço da estrada, essa larga fita desigualmente bordada de prédios abrasileirados, onde de preferência passeia num vai-vem continuado a chusma de banhistas, pobres e tocadores.

Mendigos, aleijados e andrajosos, arrastam-se pedindo esmola numa cantilena arrepiante; cegos com a cabeça erguida, à busca da luz que de todo lhes fugiu, passam guiados pelas mãos de míseras crianças; a mulher da harpa e o homem da rabeca, cegas de viola, galegas de pandeiro com as curtas tranças caídas atadas na ponta, levam atrás de si ondas de basbaques, que pasmam e fazem roda logo que a desafinada música principia; às portas dos hotéis organizam-se me grande grita as alegres burricadas; raras carruagens de luxo, com os cocheiros abafados em fartos sobretudos brancos por um calor de rachar, passeiam banhistas venturosos, que há vinte anos assombram a província com o luxo das mesmas equipagens; crianças lindas, alegres e felizes,  abrigadas por grandes chapéus de palha, correm na frente das mamãs ou das criadas; outras, enfezadas e raquíticas e já tolhidas do reumático, pobres seres que entram na vida pela larga porta do sofrimento e da dor, por onde todos nós, velhos, um dia, teremos de sair, vão nos carros de doentes abafadas, com o seu arzinho triste de uma melancolia profunda; lavradores e lavradeiras que recolhem do banho da tarde caminham lentamente, agasalhados nos lençóis de banho e nas saias de flanela escura que põem à cabeça; um doido com a sua cabeça de apóstolo de retábulo de igreja, inofensivo, apesar do forte cacete com que bate no chão as longas e lentas passadas, é seguido pelo rapazio, que às furtadelas lhe puxa pelas abas do casaco esfrangalhado; brasileirinhas de olhar lânguido, vestidas ainda na rua do Ouvidor, calquinham com os seus sapatos amarelos a poeira da estrada, amparadas a finos varapaus ferrados; os papás, ventrudos e com ricos brilhantes no peitilho da camisa, vão deitando para o ar fumaradas de charuto e de importância, cruzando, desdenhosos, garotos calçados em chinelas, filhos de pequenos lavradores remediados, que daqui a vinte anos, passearão também por este Minho risonho, -- se a febre amarela os não levar a breca -- as suas belas apólices e a rica comenda de Cristo!

E é positivamente este confuso rumor de romaria que a rapariguita dos chapéus evita fugindo para longe. Para onde? Quantas vezes, passando junto ao cemitério, que em declive vem morrer na estrada, alegre e risonho, com os seus muros caiados, ou então da ponte, olhando o fundo vale assombreado, fizemos a nós mesmo esta pergunta?

Ontem à tarde, descendo ao banho mourisco, e de lá seguindo sempre o rio, à sombra de belas árvores -- carvalhos, que as vides abraçam; esguios freixos enramilhetados no alto; amieiros finamente recostados; tristes salgueiros de folha miudinha; raros castanheiros de onde agora, ao menor sopro da aragem, caem as candeias como grandes lágrimas douradas -- pisando sobre a relva fresca mimosas flores silvestres e escutando enleados a festiva música dos pássaros, caminhávamos sonhando, quando, de repente, do outro lado, um canto triste, como o de uma alma penada, se elevou vibrante, fazendo calar nos ramos as tímidas toutinegras e na nossa alma esvair-se como fumo o inexplicável, o indefinível enlevo, que a nossa fantasia ia acalentando. Sentada sobre umas pedras, mais pálida do que nunca, e compondo a interminável trança, ere ela que soltava em notas cristalinas os fundos, magoados, gemidos do seu dilacerado coração, não despegando os olhos da corrente, que corria mansa e límpida, beijando junto às margens as verdes frondes dos fetos.

Quase ao mesmo tempo, de entre os milhares da margem onde estávamos, a voz roufenha de um homem gritou imperativamente:

--Eh! rapariga, basta hoje da maluqueira do rio; é saltar à bouça e recolher o gado, que vão sendo horas.

A voz da rapariga estrangulou-se-lhe na garganta; levantou-se, e, sempre fazendo a sua trança foi subindo vagarosamente a encosta. As toutinegras recomeçaram nos ramos, contentes, a cantar. O homem, um pouco adiante, seguia o mesmo trilho que eu ia pisando. Apressei o passo, chegámos juntos ao portelo.

--Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

-- Para sempre louvado, -- respondi; e logo, sem mais rodeios, perguntei-lhe se a moça era sua criada.

-- É minha filha e tem sido os meus pecados, senhor.

--Os seus pecados?!

Então, trocando os vv pelos bb, explicou-se na sua linguagem pitoresca, que, haveria uns bons dez anos, pelo inverno, guardando ela os bois com um rapazote da mesma idade, que era seu criado, ali por aquele mesmo sítio, o rapaz caíra ao rio e fora encontrado morto perto do açude da azenha. Desde aquele dia, a rapariga, sempre que podia, fugia de casa, e, a modos apatetada, ficava horas inteiras sentada naquelas pedras a olhar para o rio.

-- Por mais bordoada que lhe dei, não me foi possível arrancar-lhe essa manha do corpo: aquela, senhor, vai de palmito à cova.

Estávamos perto das poldras, os bois bebiam sossegadamente, levantando de vez em quando as bondosas cabeças para o ar parado e calmo; ela, a meio do rio sobre uma pedra, com o molhos das palhas de centeio humedecidas entalado debaixo do braço esquerdo, compunha ainda, sem desviar os olhos da corrente, a comprida trança de onze pernas, que achatada entre os dedos, se lhe enrolava no braço à medida que crescia!...

Comentário: Uma jovem figura como que saída de um quadro delicado de Albert Anker, tão agradável, mas ao mesmo tempo perturbadora, numa oscilação que caracteriza o conto de Arnoso: o bulício da feira e do do caminho para os banhos estivais, com visível comprazimento do narrador que enumera e enumera, e a figura que viremos a saber trágica da pequena vendedora de chapéus.

Bernardo de Pindela, futuro Conde Arnoso (1855-1911), um dos Vencidos da Vida e amigo dilecto de Eça de Queirós, secretário particular do rei D. Carlos. Livro publicado a meias com o cunhado, o Conde de Sabugosa.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

#14 - DIÁLOGO DOS BEM CASADOS (Henrique Abranches, 1932-2004)

-- Já apitou, Germano?
-- Não, ainda. Bom, Luísa, fala tudo já. O comboio não falta muito vai embora.
-- Sim, Germano, mas fala você. Que mais é?
-- É... trata bem o nosso miúdo, ouviu?
-- Sim, eu trato dele, eu não esquece menino, não esquece com certeza. O miúdo é nosso filho, não é? Por isso eu trato bem, não precisa recomendar. Vá, Dominguinho, fala adeus no pai, wé!
-- Olá Domingo, wé? Faz boa viagem e toma o juízo heim? A mãe to dá quando você faz asneira. Bom...
-- Ah! Germano... agora eu vai embora e você fica!...
-- Pois é, eu vou ficar, mas não te importa, Luísa. Depois eu vai também.
-- Vai sim! Não demora não. É uma pena assim...
-- Está bem. Bom, Luísa, não esquece falar no meu pai de pagar no sapateiro, os meus sapatos que ficou lá no ano passado. Olha aqui: assim eu não pode andar, tá a ver? Você sabe, não é? Não esqueça falar isso, não?
-- Está bem, Germano, fica descansadinho que eu não esquece. Mas você não demora muito aqui, ouviste? Olha só: o Domingo já está a chorar com a mágoa no coração. «Lembalaça yomuxima». Coitadinho...
-- Coitadinho... diz nele que não chora assim, que o pai vai logo... sim, vai qualquer dia, quando Deus manda.
-- Deixa chorar o menino. Chorar é bom... éwé! O comboio vai embora, a máquina já bufou!
-- Não vai nada, Luísa! Só bufou, mais nada. Mas fala tudo depressa, ouviu? Tá aí vai embora.
-- Pois é. Olha, Germano: todos os dias vai visitar a mana Teresa, está bem? Coitadinha, está tão doentinha.
-- Está bem, senhora. É só?
-- Sim. Trata do miúdo dela que não tem mais ninguém no mundo. Manda doce para ele. Todos os dias não, que é muito caro, mas todas as semana não faz mal. Cada mês leva também assim uma coisa qualquer, umas peúga, ou uma coisa assim. Coitadinha a mana Teresa... ouviu Germano?
-- Ouvi. Fico carregado disso, descansa. Eu nunca esquece a família. Olha... Toto wé...
-- Hi! Germano! Germano wé! Ai meu Germano...
-- Oh! Luísa...
-- Toto wé! Germano!
-- Suntya! Foi aquele gajo, caramba! Foi ele que me empurrou. Está muita gerente hoje na Estação. Tanta gente assim nunca vi! Toto!...
-- É mesmo. Tanto barulho, a gente tem que gritar. Eu já pensei que tu vai e não vem falar comigo. Olha, Germano, afinal eu ainda quer falar uma coisa a você...
-- Fala então, já falta pouco o comboio vai mesmo.
-- Bom. Você vai prometer uma coisa a mim, está bem?
-- Eu ainda não sei... então como é?
-- Mas promete só primeiro, depois eu é que falo.
-- Não pode, Luísa, um homem não pode prometer assim à toa.
-- Ah... anda lá, promete assim belamente. É por causa do Dominguinho.
-- Pronto, mulher, está bem.
-- Já prometeu?
-- Então não ouviste?
-- Ah! Sim senhor. Sabe o que é? Bom, você promete não andar com as outras gaja, essas «muiungueira» da Kipata, ouviu?
-- Oh! Caramba! Deixa lá isso agora Luísa! Então quando está quase para ir embora começa a chatiar com essas manias, não é?
-- Promete, meu Germaninho...
-- Qual quê! Não chatia, home! muda lá a conversa!
-- ...

-- ...
-- Gosto quando você está a rir assim para mim. Porque não tira o fotografia? Põe a gravata e o casaco, tira a fotografia assim a rir e manda para Luanda. Assim a rir para mim.
-- Pois é. E no fim quem paga é Deus, não é?
-- Nada, homem, é só que eu gosto.
-- Gosta?
-- Eh!... Meu Germano fica hoje... eu vou embora no Luanda e você fica... meu coração está a chorar.
-- Não chora mais, Luísa. Não adianta. Olha tem o meu lenço e limpa essa carinha, filha. Olha, canta só, canta aquela cantiga da nossa terra: omuxima wé... omuxima wé pikena...
-- Ai, Germano. Não fala essa cantiga senão eu não aguenta. Ai o meu homem coitadinho, vai ficar aqui sòzinho...
-- Se não gosta daquela cantiga canta a nossa juventude, o «juventude de Catete»: «Doutolo Neto wé, vondali yatumo...»
-- Deixa as cantiga, Germano. Eu só quero chorar. Você vai ficar aqui sòzinho...
-- Paciência, Luísa, depois eu também vou. Vou no trás de você, faz de conta que vou a porseguir outra vez, como antes da gente manter.
Por acaso! Mas falta muito tempo não é?
-- Ah! Luísa, você também anda bem, ahn, tá a ouvir? Anda direito.
-- Já sabe, Germano, não precisa dizer isso.
-- Quando sai toma cuidado com os vadios. Bom. Eh! Agora é que pitou!
-- Wé! Vai embora já! A gente já vai! Eh! Germano, já tá a começar!
-- Adeus, Luísa! Adeus, Luísa! Boa viagem!
-- Adeus, Germano! Não corre assi, vai to cansar! Adeus wé! Adeus...
-- Adeus, Luísa... Oh! Adeus, Luìsinha. Toma conta no miúdo... Luìsinha adeus, té qualquer dia... adeus ADEUS toto é!...

Luanda, em S. Paulo, Agosto de 61


Diálogo (1962)
 


Nota - 2.ª ed., Lisboa, UCCLA, 2015, pp. 19-22. Um delicioso conto dialogado, como todo os que compõem o livro, redigido com inventiva e mestria.



 

terça-feira, 5 de março de 2019

#13 - DOS PERIGOS DO RISO (José Eduardo Agualusa, 1960)

quando parámos o jipe é que os vi. Estavam ali, à beira da estrada, meio escondidos pelo fragor do crepúsculo -- o velho e os seus lagartos. Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos. Ele reparou no meu interesse e disse o preço:
-- Cinco milhões, paizinho. Cada um.
Pareceu-me um preço justo. Valia a pena discutir:
-- Cinco milhões?! Por cinco milhões só se eles falassem...
O velho olhou-me muito sério:
-- Falar falam pouco, sim, meu pai. Mas riem muito.
Riam, os lagartos?! Riam de quê? O velho encolheu os ombros. Ele não sabia. Riam à toa, como os malucos, riam uns com os outros enquanto tomavam sol. Achei que só por causa daquela resposta o velho merecia o dinheiro.
Dei-lhe cinco notas, que ele alisou cuidadosamente antes de as guardar no bolso. Depois entregou-me o maior dos lagartos:
-- Chama-se Leopoldino, este, e é o mais espertíssimo.
Quis saber o que ele comia. O velho explicou-me que o bicho sabia tratar de si. Alimentava-se de moscas, baratas, mosquitos, mantinha a casa livre de insectos. Tentei brincar:
-- E além disso podemos contar-lhe anedotas, não é?
O velho não me respondeu. Debruçou-se sobre os lagartos e disse-lhes qualquer coisa. Pareceu-me que falava uma língua trazida de outro mundo. Falava uma brisa, um sopro, um rumorzinho vegetal e húmido. Entrei no jipe e fiquei a vê-lo desaparecer, uma sombra dentro da noite escura, com a sensação de que era ele que tinha feito troça de mim.
Porém, quando estávamos quase a chegar ao Sumbe, o lagarto começou a rir. Sei que parece estranho, mas é a pura verdade: Leopoldino ria. Não ria exactamente como uma pessoa, claro, ria como uma pessoa semelhante a um lagarto, mas ria. Eram gargalhadas secas, cínicas, que estalavam dentro do jipe de uma forma vagamente assustadora. Eu ouvi-o e não tive vontade de rir. O meu amigo, que conduzia o jipe, ficou ainda mais inquieto:
-- Essa besta está-se a rir de quê?
Encolhi os ombros (como fizera o velho). E eu sabia? Talvez ele fosse de rir à toa, como os malucos. Disse-lhe que os lagartos daquela espécie comunicam uns com os outros, às gargalhadas, enquanto tomam sol. O meu amigo, no entanto, tinha outra opinião:
-- Não! -- É óbvio que está a rir-se de nós!...
Aquela suposição instalou a desconfiança dentro do jipe. Abri a caixa de sapatos onde guardara Leopoldino e coloquei-o à nossa frente no tablier. Os olhos dele eram muito antigos. Todo ele era muito antigo Observámo-nos os três em silêncio. Leopoldino tinha um ar desafiador, talvez um pouco arrogante, mas não descobri naqueles olhos o mínimo lampejo de ironia. Tentei tranquilizar o meu amigo:
-- Os papagaios riem, até falam, mas o riso deles, ou aquilo que dizem, não tem significado nenhum. Ora os répteis são parentes das aves, porque é que não podem existir lagartos capazes de imitar o riso dos homens?
O meu amigo começava a ficar nervoso:
-- Não me lixes! Sei muito bem quando é que um lagarto se está a rir de mim...
Colocada a questão daquela maneira já era um assunto pessoal. Uma gargalhada é muitas vezes pior do que o pior insulto. Ainda por cima o riso de Leopoldino deixava campo aberto a todas as especulações: podia estar a rir-se da estupidez de dois sujeitos que compram um lagarto, na estrada Luanda-Sumbe, por cinco milhões de kwanzas; ou talvez soubesse alguma coisa (sobre nós) que seria preferível que ninguém soubesse (nem sequer a nossa consciência). Disse isto apenas para fazer conversa, mas o meu pobre amigo levou-me a sério:
-- Deve ser por causa daquilo com a Ana -- murmurou sombriamente -- o maldito bicho sabe coisas de mais.
Eu ignorava o que é que tinha acontecido entre ele e a Ana; nem sequer sabia quem era a Ana, mas achei melhor ficar calado. Devia ter sido alguma coisa de um ridículo estupendo. Se ele me contasse talvez eu não fosse capaz de conter o riso. E se eu me risse, naquela altura, isso seria o fim da nossa amizade.
-- O pior ainda não te disse -- confessei --, a acreditar no velho, ele também é capaz de falar.
-- Ele fala, o animal fala?! Não, isso já é demais!...
Encostou o jipe na berma da estrada, mantendo os faróis acesos, e saltou para o asfalto. Na mão direita segurava uma pistola.
-- Vou executar esse muadiê!...
Era a primeira vez que o via com uma arma. Saí do jipe em sobressalto:
-- É claro que não vais. O lagarto é meu.
Ele olhou para mim e percebi que não estava a brincar. O meu amigo tinha passado pela guerra. Dois anos no Cuíto Cuanavale.
-- O lagarto é meu -- disse-lhe --, deixa-me ser eu a tratar disso.
Tirei-lhe a pistola da mão, agarrei na caixa de sapatos onde estava Leopoldino e afastei-me alguns metros para o interior do mato. Os faróis do jipe iluminavam o capim seco, os altos cactos, o largo contorno de um embondeiro. Na noite imensa, límpida estrelada, só se escutava o cantar rouco de um grilo. Pousei a caixa no chão, apontei para ela e disparei três tiros. Quando o eco do último disparo se dispersou fez-se um fantástico silêncio. E então, subitamente, uma rajada de metralhadora, à minha esquerda, alvoroçou a noite. Fiquei um instante transido de pavor e depois voltei-me na direcção do jipe e comecei a correr. Atrás de mim, sobrepondo-se ao fragor do tiroteio, ouvi distintamente a gargalhada seca de Leopoldino. O meu amigo já estava ao volante:
-- Despacha-te muadiê, pouca sorte, parece que começaste uma guerra.
Enquanto mergulhávamos velozmente na noite, de luzes apagadas, ele voltou-se para mim:
-- Mataste o bicho?
Respondi com um grunhido. O que eu queria era sair dali.
-- Tinha de ser -- disse o meu amigo, e o sorriso dele brilhou na escuridão. -- O tipo sabia de mais!...


Fronteiras Perdidas (1999)

Nota - Uma obra-prima de humor e absurdo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

#12 - AGADE E NIMUR (Mário de Carvalho, 1944)

Havia em Agade uma porta imemorial e no frontão tinha escrito: «Porta em frente da qual se não colhe o trigo.»
Veio o rei e mandou cortar o trigo em frente da porta.
Em Agade havia um templo velho, repleto de oferendas. O rei profanou o santuário e tolheu ao templo as oferendas.
Corria em Agade uma rua estreita, por onde, há séculos, era vedado passar.
Transitou-a o rei com seu séquito, um dia, e outro, e outro, queimando perfumes.
Os deuses curam que os homens não rompam proibições, ainda que reis sejam. De modo que qualquer obscuro deus se viu movido a intervir.
Por isso, os povos da montanha, em suas peles de cabra, pegaram aljavas e arcos e seus arremessões e fundas, e vieram-se a Agade, em espessas coortes.
Na porta inscrita foi exibida a cabeça e membros rotos do rei. No templo se restauraram os ídolos de antanho. A antiga rua embargada se mostrou coalhada de muito sangue.
Das gentes de Agade só um escriba restou, e verteu no barro uma «Lamentação sobre a cidade de Agade».
Foi-se logo o escriba à cidade vizinha de Nimur, e sendo aí o rei falecido o fizeram rei, que era bom espelho de sageza.
Havia em Nimur um portão chapeado que, diziam, dava para a sétima esfera, e por onde nunca ninguém tinha entrado. O rei forçou o portão, no estrondo de um aríete, e mandou fabricar mil longas lanças, de duras, aguçadas pontas.
Havia em Nimur uma fonte de que era proibido beber. Veio o rei e bebeu por ela, ordenou que todos os da cidade bebessem com ele, e mandou que lhe fabricassem mil arcos e suas flechas e aljavas.
Atravessava Nimur uma ponte velha, fechada de correntes, por onde ninguém ousava passar. Passeou-se o rei por ela durante todo um dia, desfeitas as correntes, e mandou edificar, e mandou edificar logo duas altas muralhas e seis torres de cantaria talhada nas pedreiras longes do Oriente.
Das serranias vieram  então pastores em fortes mesnadas de guerra. Derribaram uma muralha e outra, mas quedaram-se ante a terceira, atravessados de lanças, farpeados de setas.
E voltaram vencidos a seus caminhos de montanha.
Um qualquer ignoto deus tombou desamparado, desfez-se de encontro às areias, frente a Nimur. Seu diadema de filigrana diluiu-se em finíssima poeira dourada.
Quem quer que passe os limites tem de antever as altas vindictas e prover o seu resguardo. Mas por cada limite franqueado há um deus que se despenha lá de cima.
Esta a lição aprendida e revelada pelo escriba feito rei de Nimur.
Aflora ela nos «Mil louvores à glória de Nimur», redigidos no barro por todos os escribas da cidade.


Contos da Sétima Esfera (1981)

Nota - «por cada limite franqueado há um deus que se despenha». Ser um escriba o agente, é preciso notar.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

#11 - O PRESÉPIO (D. João da Câmara, 1852-1908)

Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa.
Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa!
Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!...
Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera a volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço.
É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de oiro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjar o lugar.
Com o seu examezinho de instrução primária, marçano de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador.
Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se haviam mostra de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero, mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer auréolas, que giravam como fogo de vistas pelas festas.
Ali estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces.
Os primeiros dias tinham passado muito lentos.
A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro haviam-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa.
Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe haviam batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. Chegou o Verão. As festas de São João e de São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. reviu nesses dias mais intensamente a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse uma quadras falando de estrelas e de flores.
A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixavam dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade.
Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior.
Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva. O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe.
-- Acorda, ralaço! -- gritava-lhe o patrão.
Estava a chegar o Natal.
Que lindo era o Natal lá na aldeia!
Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso.
Então o pequeno teve uma ideia.


Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa.
Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas.
Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação.
Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver.
Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.
Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio e, no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora.
Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal.
Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de quando em quando, revia-se na obra.
O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto.
Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como não o tinha doirado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma.
Aquele mês passou correndo.
Era a véspera do Natal. Às dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.
Que alegria estar só!
Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo principiou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se havia de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.
Deram onze e três quartos.
Ajoelhou.
Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação de sua vida triste.
Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinho se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes... Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão, muito atarefado, ia, vinha...
Meia-noite!
Acendeu os fósforos e ficou embasbacado!
Nunca vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a são José e a Nossa Senhora!
Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:


                                                                                 Andava nessas campinas,
                                                                                 Esta noite, um querubim.


Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abriu a porta, entrar na loja, chegar ao desvão.
Acordou-o do êxtase um pontapé.  
-- Isso!... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!
E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura.
O bruto continuava aos pontapés.
-- Vá!... Vá!
Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele...
Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.

Comentário. Um texto dickensiano, ou de como a boçalidade, como toda a força bruta que lhe assiste, acaba por desvanecer-se impotente ante o halo que fica a pairar no fim deste conto: apesar de tudo o Amor triunfa.


Contos do Natal (1909) / Gloria in Excelsis -- Histórias Portuguesas de Natal, edição de Vasco Graça Moura, 2003, pp. 75-79.

sábado, 20 de agosto de 2016

#10 - O CADÁVER DE JAMES JOYCE (José Luís Peixoto, 1974)

Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo, vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura, era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje, me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. A lógica, o absurdo da lógica e a lógica precisa, milimétrica, do absurdo, são para mim assuntos que me absorvem, como se fossem, de facto, a primeira regra da minha vida. Mas, como disse, era muito novo, e esse pânico não tinha ainda atingido as dimensões actuais que, juntamente como outros pânicos cansaços, acabarão por ser o meu fim. Nesse tempo, eu era o único leitor de mim próprio e ninguém esperava nada das minhas palavras. A vida era menos difícil, portanto. Eu considerava-me um grande escritor desconhecido e era quase feliz, porque fechava os olhos a muitas coisas.
No primeiro dia em que saí à rua, depois dessas semanas, trazia ainda no olhar o olhar das personagens e passeei-me por Lisboa, como se não conhecesse Lisboa, como se me admirasse com tudo. As horas dessa tarde muito fria de Janeiro passaram e eu passei com elas. Aos poucos, deixei de ser as personagens para ser o narrador: uma voz maior que eu, uma voz que tinha surgido do romance como uma voz da terra. Descrevi, para mim próprio, as paredes, os pombos a andarem devagar no chão, como se todos os pombos fossem uma criatura maior e que se amontoa e se estilhaça. Descrevi, para mim próprio, as pessoas a olharem-me e imaginei o que elas imaginavam de mim. Mas também aos poucos, o narrador saiu de mim, talvez assustado com o ridículo de ser um narrador a descrever mentiras dentro de uma pessoa, e voltei a ser o que sou: qualquer coisa absurda que procura uma lógica impossível e que se chama Zé Luís. No entanto, depois de duas semanas a observar palavras, depois de um ano a desenterrar palavras, eu era alguém que só podia fazer coisas grandiosas. Só essa ideia me parecia lógica. Entrei numa livraria do Chiado. Vi-me a entrar na livraria e imaginei: José Luís Peixoto entra numa livraria, onde ainda se ignora a importância das suas palavras. Creio que o narrador ainda devia andar dentro de mim, escondido em algum canto escuro.
Não sei como explicar. Tirei um exemplar do Ulisses da prateleira e comecei a ler. Nunca o tinha lido todo. Ainda não li. Não acredito que alguma vez o vá ler todo. No entanto, tirei um exemplar da prateleira e li dois parágrafos. Gostava de escrever assim. O efeito que aquela breve leitura teve em mim foi inesperado. Instantaneamente, lembrei-me de ter lido, havia alguns anos, numa enciclopédia da minha irmã, que o James Joyce estava enterrado em Zurique. Lembrei-me também que, na altura tinha acabado de ler The Dubliners e que senti algo de revolta. Na livraria, sem que os meus olhos vissem a livraria, imaginei-me, secretamente, um herói. Eu tinha escrito um dos maiores romances da história da literatura. Eu só podia fazer coisas grandiosas.
Em casa, guardei duas camisolas dentro de uma mochila e saí. Tinha dinheiro e fui para Santa Apolónia. Comprei um bilhete para Zurique. Não sabia que se podia ir para Zurique de comboio, mas fui informado de que o Sud-Express ia sair dentro de poucos minutos e que, assim que chegasse a França, devia mudar de comboio. Fui todo o caminho de pé no corredor. Assustava-me a ideia de não me conseguir controlar e de poder contar o meu plano a qualquer emigrante de Paris ou a qualquer francês que andasse a fazer um interrail e que partilhasse comigo o vagão. Fui sempre a olhar pela janela e, interrompido de vez em quando por revisores, pensei sempre que ia chegar a Zurique e que ia desenterrar o corpo do James Joyce e que ia levá-lo para Dublin. Donde nunca devia ter saído. Troquei de comboio e cheguei a Zurique.
O dia estava a acabar. Telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava no Rossio. Estava num telefone público da Suíça. Tenho uma licenciatura em alemão. Tenho um diploma carimbado que garante que sou licenciado em alemão. Debaixo do carimbo, falta dizer que foram quatro anos de cábulas e de ajudas por parte de alguns colegas mais caridosos. Mas, mesmo assim, o meu alemão básico chegou-me para alugar um quarto numa pensão pequena, pequena, minúscula, mesmo ao lado do cemitério. A senhora da recepção, com as mãos sobre os papéis de registo, virou os óculos na ponta do nariz quando lhe disse que fazia questão de ficar no quarto ínfimo, que tinha uma janela do tamanho de um isqueiro com vista para o cemitério: o branco das campas desenhado no negro, as formas das árvores esculpidas no negro.
Quando o sol nasceu, tinha as pernas dormentes. Desci para o pequeno-almoço; torradas e café com leite que a senhora da recepção me serviu contrariada. Comi devagar. Não tenho apetite de manhã. Esperei três cigarros até que abrissem o portão do cemitério. Eu e duas velhas fomos as primeiras pessoas a entrar. Tentei procurar a campa sozinho, mas perdi-me. Encontrei uma das velhas a trocar flores murchas de uma jarra e perguntei-lhe. James Joyce? Nunca ouvi falar. Não lhe expliquei. Há coisas que não vale a pena tentar explicar. Andei toda a manhã, às voltas no cemitério, a olhar para nomes, a olhar para datas. Por fim, era já hora de almoço, estava com fome e frio, encontrei a campa do James Joyce. Estava abandonada. Nenhuma mulher lhe ia trocar as flores murchas, não tinha flores. Tinha musgo à volta das letras. James Joyce escrito a musgo.
Voltei à pensão. A senhora da recepção assustou-se com a minha chegada. Assustou-se ainda mais quando lhe perguntei pelo almoço. Pão, duas salsichas fritas e dois ovos estrelados pela senhora da recepção com um avental de folhos. Saí para ir comprar uma picareta e uma pá. Tive que apontá-las com o dedo. Não sei dizer picareta em alemão. Fui para o meu quarto dormir e sonhar. Acordei a meio da noite. Acordei logo totalmente desperto, como se não tivesse acordado, como se não tivesse dormido. Agarrei a picareta, a pá e a mochila. Saí do quarto sem fazer barulho. Na rua vesti as duas camisolas que trazia na mochila. Estava muito frio. Subi para cima de um Mercedes que estava estacionado e saltei o muro do cemitério. Procurei o caminho que conhecia e fui directo à campa do James Joyce. Enfiei a ponta da picareta numa das juntas do mármore e fiz força, força, força. O mármore não se movia um único som de mármore a arrastar-se. Quando as minhas forças já desesperavam, fechei os olhos e, com toda a vontade dos meus braços e do meu corpo inteiro, ouvi o mármore a soltar-se. Comecei a cavar. A picareta e, depois, a pá. O som da picareta, e, depois, o som da pá. O meu entusiasmo a apressar-me. Depois, a picareta a acertar em algo. O tesouro. A pá a tirar a terra solta. As minhas mãos a tirarem a terra solta. A tampa do caixão partiu-se debaixo dos meus pés. Afastei pedaços de caixão Lá estava o James Joyce. Segurei-lhe o braço direito, a mão que escreveu o Ulisses, e os ossos separaram-se pelas juntas. Segurei-lhe o crânio: os olhos do James Joyce, o crânio onde nasceu o Ulisses. Olhei para o céu e não encontrei a lua. Algumas estrelas entre as nuvens. Na noite, senti-me grandioso e feliz. Guardei tudo o que me parecia pertencer ao James Joyce dentro da mochila. Os ossos, uns contra os outros, faziam um barulho brando. Saí da cova e comecei a tapá-la com pás cheias de terra. Animado pelo peso do James Joyce nas minhas costas, empurrei de novo a pedra sobre a campa. De manhã, estava na estação de comboios.
Sentado num vagão, levava a mochila sob o colo. Pensava que era revelador que o James Joyce, ele próprio, pesasse menos do que a maioria das edições do Ulisses, quando à passagem pela fronteira, o comboio abrandou e parou. Entrou um polícia, bigode, patilhas, e pediu-me o passaporte. Apontou para a mochila e perguntou; chocolates? Sorri. Saiu. Meio cigarro depois, o comboio continuou. A paisagem, as árvores despidas, as poças de água, deixavam-me pensar. Por vezes, as aldeias. Na pequena estação de uma aldeia cinzenta e verde, decidi sair. Entrei num café, conheci um senhor. Ofereceu-me um quarto, ofereceu-me trabalho a tratar de cinco vacas. Apaixonei-me pela filha do senhor. Guardava a mochila atrás de uma cómoda. Passava as noite, no quarto ao lado da filha do patrão, Sabine era o seu nome, a pensar nela e a sofrer por ela. Às vezes, retirava o James Joyce de dentro da mochila e estendia-o sobre a cama para não ganhar mofo. Passaram-se três meses de que não me orgulho.
Quando decidi ir-me embora, era já Primavera. Três das cinco vacas iam parir, mas eu já estava farto de amor não correspondido e Dublin esperava-me. De madrugada, dirigi-me à pequena estação e apanhei o primeiro comboio que passou em direcção a Paris. Troquei de comboio. Estava cansado. Mesmo James Joyce, tão leve, parecia-me demasiado pesado. Considerei ainda a hipótese de abandoná-lo num contentor do lixo de Paris, mas eu não sou daqueles que desistem. Enquanto tenho um resto de esforça, tenho um resto de esperança. Eu não sou daqueles que desistem. E cheguei a Calais. Os barcos estavam cheios e só podia seguir viagem no dia seguinte. Enganei um inglês. Roubei-lhe o bilhete e também lhe teria roubado a carteira e o relógio se me apetecesse, mas o bilhete bastava-me. Em Inglaterra viajei sempre de autocarro. Passei metade do tempo enjoado e metade do tempo a dormir, de boca aberta, tombado sobre o passageiro do lado, abraçado ao James Joyce. Em Londres, decidi apanhar um avião directo para Dublin. Estava muito cansado e muito sujo. Ainda cheirava a vaca. Tinha saudades das personagens do meu romance e vontade de telefonar à minha mãe e dizer-lhe que estava no Rossio, estando mesmo no Rossio.
Depois do check in, depois da mochila ter sido radiografada como bagagem de mão, depois de me terem avisado com uma piscadela de olho que não se podia viajar com comida, mas que desta vez passava, sentei-me numa das cadeiras da primeira classe. A hospedeira tirou-me uma palha do cabelo e serviu-me champanhe. Respirei. A centenas de metros de altura, abri pedacinho do fecho da mochila e olhei para o James Joyce. Confiei nele, já éramos amigos, pousei-o no meu assento e fui à casa de banho. Lavei a cara. Quando voltei, estavam dois miúdos a atirar o James Joyce um para o outro. Agarrei a mochila furioso e contive-me para não dar uma estalada ao miúdo. A mãe dele, sentada ao lado, acordou e disse: oh Sean. Apetecia-me chegar a Dublin. A aterragem foi suave.
As ruas, os pubs, as pessoas. Atravessei três pontes até encontrar um parque. No parque, caminhei até encontrar uma árvore que me agradasse. Era uma árvore grande, talvez um plátano. Entre as raízes, cavei com as mãos. Primeiro a relva, depois a terra. A noite crescia devagar na tarde. Passavam pessoas que me olhavam por um instante, mas todas desviavam o olhar. Quando não estava ninguém, nem nos caminhos do parque, nem atrás dos arbustos, enfiei o James Joyce, dentro da mochila, no buraco e cobri-o com terra e com uma camada de relva. Olhei por instantes para o sítio onde o deixei e considerei que tinha feito algo de bom. Levava uma falta no coração. Sentia pena de deixar o James Joyce. Na altura ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre falta de algo onde quer que esteja. Fui para Lisboa. Na noite seguinte, dormi já na minha cama, abraçado ao manuscrito do meu primeiro romance.


Nota - Um conto que, não sendo um primor de estilo, salva-se, e bem, pelo absurdo e pelo humor.


terça-feira, 19 de julho de 2016

#9 - NATAL DE CONSOADA (Manuel de Boaventura, 1885-1973)

O Natal é a grande festa do mundo cristão.
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Em parte alguma de Portugal, a festa do Natal toma um aspecto tão sinceramente festivo e suavemente poético, como no Minho. Natal e Páscoa são festas puramente regionais: não há tristezas nesses dias, a não ser para a família dos ausentes e para aqueles que perderam algum ente querido. Então a alegria, é substituída pelas lágrimas consoladoras da saudade.
A consoada... Quando chega esse grande dia, de regozijo familiar, os que estão longe vêm procurar no lar de seus maiores, os pais, as esposas, os irmãos, os filhos... -- para se reunirem ao redor da mesa comum, no aconchegado banquete da «noite grande».
Sobre a vetusta mesa de castanho refulge a alva toalha de linho, que as mães e as filhas fiaram à lareira, em frígidas noites de invernia; e teceram, depois, em perfumadas manhãs de primavera, quando os homens, na azáfama das agras, suavam o pão de cada dia.
Sobre a nevada toalha, os bojudos pichéis do vinho verde, rubro e saltarelo, os copos reluzentes e os talheres a brilhar, como prata de lei.
Grandes travessas de bacalhau, com batatas farelentas e «tronchos» de hortaliça; o cheiroso arroz, que o polvo purpureou; os bolinhos; os mexidos perfumados a canela; o vinho quente, adoçado com mel; as castanhas, as nozes, os figos... -- ementa farta e sobejante, que atulha a mesa e acoberta a toalha. A abundância é a principal característica da Noite Boa de Natal.
Depois a alegria, a grande alegria, que campeia infrene! A mãe põe, no trafogueiro, o enorme canhoto de carvalho, que há-de sustentar o brasido, e arder toda a noite. As crianças galram e assam as pinhas mansas, para tirar os pinhões e jogar o rapa, e a «supetaina-somandaina».
Um diz: -- «Supetaina!»
Logo outro: -- «Somandaina!»
-- «Pernão ou pares?»
-- «Abre mão e dá-le ares.»
-- «Quatro pares...»
A lenga-lenga faz rir.
A carcaça das pinhas guarda-se, para os dias de trovoada.
Quando lampeja o fogo no Céu, e ribomba o trovão...
- S. Jerónimo! Santa Bárbara Virgem!
...vai para o lume uma pinha da noite santa, para afugentar o sarrisco...; e esconjura-se a trovoada:
- «O Senhor te guie,
p'ra onde não haja,
nem palha, nem grão,
nem alminha de cristão...»
O alcornoque de carvalho ou raízeiro de pinho, arde em labareda; aquece a cozinha e consola os corpos, porque lá fora cai codo branco... E quando os vivos recolherem aos catres, as alminhas dos defuntos da casa, virão, trémulas de pavor, da algidez da terra do adro, ou entanguidas pela neve, da jornada, desde o misterioso País da Verdade, aquecer-se ali, àquela mesma lareira, onde, tempos antes, quando o sangue lhes circulava nas veias e a vida enchia os seus corpos, agora desfeitos, tantas vezes se vingaram das intempéries dezembrinas.
Que saudades que isto faz! O raízeiro crepita, espirrando faúlhas de fogo para os pés das crianças, entretidas no debulho das pinhas e a joguillhar pinhões e nozes ao «par-e-pernão».
O pai e restantes convivas, sentados nas preguiceiras, rezadas as graças a Deus, contam histórias de mouras encantadas, e contos bíblicos, de quando Jesus era menino, e vivia na terra, entre os homens. A avó, já muito velhinta, corcovada, narra-os aos netos traquinas, com paciente carinho e bondade:
«Era uma vez...»
E segue o lindo contarilho. Pensa depois nos seus queridos mortos; o marido, que doze anos antes, numa noite como esta, estivera sentado naquele mesmo taburno, encostado à córa do forno, rezando ao Menino-Deus, com os netinhos sobre os joelhos; nos filhos queridos; no pai, na mãe e nos irmãos, já todos no Reino da Glória, e que não esperarão muito, que ela se lhes vá juntar. Quem sabe se chegará a outro Natal! Ah! não! Não chegará!
Dentro de si, vai um mundo de pensamentos, a correr à desfilada! Já mais de oitenta natais passaram por ela -- alegres uns, bem tristes, outros. O seu corpo mirrado de velhez e entorpecido pelo frio de tantos invernos, não chegará até às neves do futuro Natal. Estava ali, ainda viva, fitando aquele canhoto, que ardia com chama azulada, para aquecer as almas santas, dos que da casa se foram -- ora a gozarem da Bem-aventurança eterna.
Quase meia-noite. Tudo debandou. A velhinta vela, ainda, meio acordada, meio dormente. Começa o solilóquio com os mortos:
-- «António! Que triste é este Natal, sem ti! Teresinha! Que saudades, querida filha, que saudades! Aquece a tua alminha, menina, ao lume da nossa lareira. O teu lugar era aqui, ao meu lado... E tu, Manuel? E tu, João? Aconchegai-vos, filhos! Faz tanto frio lá fora!»
Quando for a sua vez -- quam sabe, se já no primeiro Natal -- a sua alma, se Deus o permitir, virá, também aquecer-se às cinzas daquele lar. Consola-a essa ideia. Está sendo pesada na terra: a morte libertá-la-á do peso dos anos e dar-lhe-á descanso na eternidade imensurável -- mistério que só Deus conhece.



Lapinhas do Natal, Braga, Editora Pax, 1964, pp. 25-31.

nota -
Natal idílico, a que nem a pobreza endémica resistia. Só a morte, porém. Só a saudade dos mortos carrega a noite com os tons mais escuros, naquele Natal, em todos os Natais de qualquer família.