quarta-feira, 21 de abril de 2021

#18 - A VINGANÇA DE D. PEDRO (Antero de Figueiredo, 1866-1953)


 

Nos paços reais de Santarém, D. Pedro esperava, impaciente, a chegada dos fidalgos criminosos. Mais de uma vez o rei passeara pela cortina do nascente e subira à torre albarrã, alongando a aguçada e sôfrega vista por cima de Almeirim, das lezírias do Ribatejo -- para além, muito para além, para as bandas de Avis, de Barbacena, de Elvas, de Badajoz, em ânsia exasperada.

Uma tarde, chegaram os presos. D. Pedro, que os esperava, tinha comido de festa; mas, mal recebeu o aviso, levantou-se da mesa com a boca cheia, mastigando viandas, atirou-se pelas escadas abaixo e correu ao encontro deles, à praça, no meio do povo curioso que, sempre engrossando, numa atordoadora vozearia, os vinha seguindo desde a Ribeira. Álvaro Gonçalves e Pero Coelho chegavam exaustos, envelhecidos, rotos, cobertos de pó e adobadas as mãos e os pescoços com uma soga de boi. D. Pedro, não vendo o Pacheco, e sabendo, instantes depois, porque não vinha, mordeu os dedos de raiva; mas, voltando-se para os outros, depois de os mirar de alto a baixo, com olhar voluptuoso e sarcástico, logo principiou a cascalhar um diabólico riso de contentamento e de escárnio, muito enganzarado, às vezes ganindo, gesticulando em desordem, batendo nervosas palmas, saltando diante deles, fazendo torcidas piruetas, convulsamente, como se de súbito o agitasse um violento ataque do mal de São Vito. Queria falar e não podia. A voz pregava-se-lhe na garganta, e, com a boca escancarada e a face contraída, fazia esgares de doente e de saltimbanco.

Espantosa explosão de epiléptica alegria a desse apaixonado coração vingativo que, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, durante anos, suspirou por esse delicioso momento de feroz revindita!

Em pé, cobertos de pó, sem coifa, com os saios esfarrapados, os pés peados e sangrentos, as mãos atadas atrás das costas, as caras terrosas e os cabelos embranquecidos, na cinta a escarcela vazia de dinheiro e de punhal; -- em pé, os fidalgos portugueses esperavam altivos, fitando sobranceiramente os olhos nos olhos do rei. D. Pedro, sempre a rir, numa agitação crescente, aproximou-se mais deles, pôs-lhes violentamente as mãos nos ombros, agarrou-os, sacudiu-os, e, com a cara em cima da cara, ora de um ora de outro, os olhos em fogo e em fúria, os dentes cerrados, silvou-lhe no auge da cólera:

-- Assassinos!

Depois, começou a fazer-lhes perguntas sobre perguntas, atropeladamente, desmanchadíssimo nos gestos e na voz, aos guinchos, cada vez mais gago, voltando-se ora para o Coelho, ora para o Gonçalves, abanando-os pelos ombros, com os nervosos puxões das suas mãos iradas:

-- Porque mataram Inês? Que conluios houve? Quem mais entrou na conjura? Quem mais? Que era que o rei meu pai tramava contra mim? Onde? Porquê? Matadores! Vamos! Quero saber quem ma matou! Os nomes? Os nomes?

E os fidalgos, em pé, firmes, brilhando nos seus olhos a luz galharda das convicções, olhavam o rei com supremo orgulho -- com a serenidade de quem está absolutamente certo de ter cumprido o seu dever; e, sempre cheios da mais nobre altivez, encaravam de alto no rei e não respondiam. Então, D. Pedro ordenou aos da escolta que os pusessem a tormentos, e ele próprio lhes torcia os braços, lhes pinçava a garganta com dedos de ferro, para os obrigar a articular palavras, a falar, a responder; e, cada vez mais enraivecido, com a boca cheia de espuma, repetia as perguntas, aos berros, esganiçado, cuspindo as palavras junto dos rostos, a babar-se, em arremetidas afrontantes, ameaçando-os com os punhos cerrados e trémulos de cólera, num estado de ira apoplética, em que os olhos inchados e rubros, rebolando nas pálpebras encarnadas, pareciam estoirar, e toda a sua figura prestes a explodir. Era um turbilhão! Uma só ideia absorvia o seu ser. O mundo era para ele aquela ideia. Mais nada sentia nem via. Se um trovão rebentasse nos seus ouvidos, não ouviria o som; se o queimassem com um ferro em brasa, não sentiria o fogo.

No atropelo com que falava, não concluía as frases. Atirava com as palavras:

-- Quem mais, quem mais?... Na conjura... Os nomes, os nomes!

Como nada conseguisse dos fidalgos, que, nobilíssimos, nem na morte denunciavam segredos, começou a ultrajá-los com palavras baixas -- as mais desabridas e injuriosas; e, tomando do tagante de pontas de ferro, que sempre trazia à cinta, azorragou com ele, de alto a baixo, a cara do Coelho, que, louco pela dor e pelo enxovalho, cresceu em infernal cólera para o rei, cobrindo-o de insultos:

-- Cobarde! Carniceiro de homens! Vilão ruim! Perjuro! Filho rebelde! Esterco de rei! Que a lepra da maldição te cubra! Algoz! Excomungado! Cobarde!

-- Cobarde, tu, cobardes vós, vilões, que vos não batestes comigo, um homem, cara a cara, cada um com as suas armas e a sua gente, como cavaleiros!

-- Gafo! Cobarde! Assassino! -- vociferava o Coelho.

-- É isto fidalguia?

E os outros, o Coelho e o Gonçalves, em coro, espumando ódio:

-- Vilão! Vilão!

(continua)

Antero de Figueiredo, D. Pedro e D. Inês (1913)

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