segunda-feira, 10 de junho de 2019

Ruben A., «Sonho de imaginação»

«No ritmo do mundo nasceu a Perfídia envolvida pela volúpia.» 


Páginas I (1949) / Antologia (2009)

domingo, 2 de junho de 2019

Henrique Abranches, «Diálogo do tempo morto»

«Uma poeirada medonha... tudo absolutamente seco, até mesmo a nossa pele velha e encortiçada.» 


Diálogo (1962)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

#14 - DIÁLOGO DOS BEM CASADOS (Henrique Abranches)

-- Já apitou, Germano?
-- Não, ainda. Bom, Luísa, fala tudo já. O comboio não falta muito vai embora.
-- Sim, Germano, mas fala você. Que mais é?
-- É... trata bem o nosso miúdo, ouviu?
-- Sim, eu trato dele, eu não esquece menino, não esquece com certeza. O miúdo é nosso filho, não é? Por isso eu trato bem, não precisa recomendar. Vá, Dominguinho, fala adeus no pai, wé!
-- Olá Domingo, wé? Faz boa viagem e toma o juízo heim? A mãe to dá quando você faz asneira. Bom...
-- Ah! Germano... agora eu vai embora e você fica!...
-- Pois é, eu vou ficar, mas não te importa, Luísa. Depois eu vai também.
-- Vai sim! Não demora não. É uma pena assim...
-- Está bem. Bom, Luísa, não esquece falar no meu pai de pagar no sapateiro, os meus sapatos que ficou lá no ano passado. Olha aqui: assim eu não pode andar, tá a ver? Você sabe, não é? Não esqueça falar isso, não?
-- Está bem, Germano, fica descansadinho que eu não esquece. Mas você não demora muito aqui, ouviste? Olha só: o Domingo já está a chorar com a mágoa no coração. «Lembalaça yomuxima». Coitadinho...
-- Coitadinho... diz nele que não chora assim, que o pai vai logo... sim, vai qualquer dia, quando Deus manda.
-- Deixa chorar o menino. Chorar é bom... éwé! O comboio vai embora, a máquina já bufou!
-- Não vai nada, Luísa! Só bufou, mais nada. Mas fala tudo depressa, ouviu? Tá aí vai embora.
-- Pois é. Olha, Germano: todos os dias vai visitar a mana Teresa, está bem? Coitadinha, está tão doentinha.
-- Está bem, senhora. É só?
-- Sim. Trata do miúdo dela que não tem mais ninguém no mundo. Manda doce para ele. Todos os dias não, que é muito caro, mas todas as semana não faz mal. Cada mês leva também assim uma coisa qualquer, umas peúga, ou uma coisa assim. Coitadinha a mana Teresa... ouviu Germano?
-- Ouvi. Fico carregado disso, descansa. Eu nunca esquece a família. Olha... Toto wé...
-- Hi! Germano! Germano wé! Ai meu Germano...
-- Oh! Luísa...
-- Toto wé! Germano!
-- Suntya! Foi aquele gajo, caramba! Foi ele que me empurrou. Está muita gerente hoje na Estação. Tanta gente assim nunca vi! Toto!...
-- É mesmo. Tanto barulho, a gente tem que gritar. Eu já pensei que tu vai e não vem falar comigo. Olha, Germano, afinal eu ainda quer falar uma coisa a você...
-- Fala então, já falta pouco o comboio vai mesmo.
-- Bom. Você vai prometer uma coisa a mim, está bem?
-- Eu ainda não sei... então como é?
-- Mas promete só primeiro, depois eu é que falo.
-- Não pode, Luísa, um homem não pode prometer assim à toa.
-- Ah... anda lá, promete assim belamente. É por causa do Dominguinho.
-- Pronto, mulher, está bem.
-- Já prometeu?
-- Então não ouviste?
-- Ah! Sim senhor. Sabe o que é? Bom, você promete não andar com as outras gaja, essas «muiungueira» da Kipata, ouviu?
-- Oh! Caramba! Deixa lá isso agora Luísa! Então quando está quase para ir embora começa a chatiar com essas manias, não é?
-- Promete, meu Germaninho...
-- Qual quê! Não chatia, home! muda lá a conversa!
-- ...

-- ...
-- Gosto quando você está a rir assim para mim. Porque não tira o fotografia? Põe a gravata e o casaco, tira a fotografia assim a rir e manda para Luanda. Assim a rir para mim.
-- Pois é. E no fim quem paga é Deus, não é?
-- Nada, homem, é só que eu gosto.
-- Gosta?
-- Eh!... Meu Germano fica hoje... eu vou embora no Luanda e você fica... meu coração está a chorar.
-- Não chora mais, Luísa. Não adianta. Olha tem o meu lenço e limpa essa carinha, filha. Olha, canta só, canta aquela cantiga da nossa terra: omuxima wé... omuxima wé pikena...
-- Ai, Germano. Não fala essa cantiga senão eu não aguenta. Ai o meu homem coitadinho, vai ficar aqui sòzinho...
-- Se não gosta daquela cantiga canta a nossa juventude, o «juventude de Catete»: «Doutolo Neto wé, vondali yatumo...»
-- Deixa as cantiga, Germano. Eu só quero chorar. Você vai ficar aqui sòzinho...
-- Paciência, Luísa, depois eu também vou. Vou no trás de você, faz de conta que vou a porseguir outra vez, como antes da gente manter.
Por acaso! Mas falta muito tempo não é?
-- Ah! Luísa, você também anda bem, ahn, tá a ouvir? Anda direito.
-- Já sabe, Germano, não precisa dizer isso.
-- Quando sai toma cuidado com os vadios. Bom. Eh! Agora é que pitou!
-- Wé! Vai embora já! A gente já vai! Eh! Germano, já tá a começar!
-- Adeus, Luísa! Adeus, Luísa! Boa viagem!
-- Adeus, Germano! Não corre assi, vai to cansar! Adeus wé! Adeus...
-- Adeus, Luísa... Oh! Adeus, Luìsinha. Toma conta no miúdo... Luìsinha adeus, té qualquer dia... adeus ADEUS toto é!...

Luanda, em S. Paulo, Agosto de 61


Diálogo (1962)
 


Nota - 2.ª ed., Lisboa, UCCLA, 2015, pp. 19-22. Um delicioso conto dialogado, como todo os que compõem o livro, redigido com inventiva e mestria.

terça-feira, 5 de março de 2019

#13 - DOS PERIGOS DO RISO (José Eduardo Agualusa)

Só quando parámos o jipe é que os vi. Estavam ali, à beira da estrada, meio escondidos pelo fragor do crepúsculo -- o velho e os seus lagartos. Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos. Ele reparou no meu interesse e disse o preço:
-- Cinco milhões, paizinho. Cada um.
Pareceu-me um preço justo. Valia a pena discutir:
-- Cinco milhões?! Por cinco milhões só se eles falassem...
O velho olhou-me muito sério:
-- Falar falam pouco, sim, meu pai. Mas riem muito.
Riam, os lagartos?! Riam de quê? O velho encolheu os ombros. Ele não sabia. Riam à toa, como os malucos, riam uns com os outros enquanto tomavam sol. Achei que só por causa daquela resposta o velho merecia o dinheiro.
Dei-lhe cinco notas, que ele alisou cuidadosamente antes de as guardar no bolso. Depois entregou-me o maior dos lagartos:
-- Chama-se Leopoldino, este, e é o mais espertíssimo.
Quis saber o que ele comia. O velho explicou-me que o bicho sabia tratar de si. Alimentava-se de moscas, baratas, mosquitos, mantinha a casa livre de insectos. Tentei brincar:
-- E além disso podemos contar-lhe anedotas, não é?
O velho não me respondeu. Debruçou-se sobre os lagartos e disse-lhes qualquer coisa. Pareceu-me que falava uma língua trazida de outro mundo. Falava uma brisa, um sopro, um rumorzinho vegetal e húmido. Entrei no jipe e fiquei a vê-lo desaparecer, uma sombra dentro da noite escura, com a sensação de que era ele que tinha feito troça de mim.
Porém, quando estávamos quase a chegar ao Sumbe, o lagarto começou a rir. Sei que parece estranho, mas é a pura verdade: Leopoldino ria. Não ria exactamente como uma pessoa, claro, ria como uma pessoa semelhante a um lagarto, mas ria. Eram gargalhadas secas, cínicas, que estalavam dentro do jipe de uma forma vagamente assustadora. Eu ouvi-o e não tive vontade de rir. O meu amigo, que conduzia o jipe, ficou ainda mais inquieto:
-- Essa besta está-se a rir de quê?
Encolhi os ombros (como fizera o velho). E eu sabia? Talvez ele fosse de rir à toa, como os malucos. Disse-lhe que os lagartos daquela espécie comunicam uns com os outros, às gargalhadas, enquanto tomam sol. O meu amigo, no entanto, tinha outra opinião:
-- Não! -- É óbvio que está a rir-se de nós!...
Aquela suposição instalou a desconfiança dentro do jipe. Abri a caixa de sapatos onde guardara Leopoldino e coloquei-o à nossa frente no tablier. Os olhos dele eram muito antigos. Todo ele era muito antigo Observámo-nos os três em silêncio. Leopoldino tinha um ar desafiador, talvez um pouco arrogante, mas não descobri naqueles olhos o mínimo lampejo de ironia. Tentei tranquilizar o meu amigo:
-- Os papagaios riem, até falam, mas o riso deles, ou aquilo que dizem, não tem significado nenhum. Ora os répteis são parentes das aves, porque é que não podem existir lagartos capazes de imitar o riso dos homens?
O meu amigo começava a ficar nervoso:
-- Não me lixes! Sei muito bem quando é que um lagarto se está a rir de mim...
Colocada a questão daquela maneira já era um assunto pessoal. Uma gargalhada é muitas vezes pior do que o pior insulto. Ainda por cima o riso de Leopoldino deixava campo aberto a todas as especulações: podia estar a rir-se da estupidez de dois sujeitos que compram um lagarto, na estrada Luanda-Sumbe, por cinco milhões de kwanzas; ou talvez soubesse alguma coisa (sobre nós) que seria preferível que ninguém soubesse (nem sequer a nossa consciência). Disse isto apenas para fazer conversa, mas o meu pobre amigo levou-me a sério:
-- Deve ser por causa daquilo com a Ana -- murmurou sombriamente -- o maldito bicho sabe coisas de mais.
Eu ignorava o que é que tinha acontecido entre ele e a Ana; nem sequer sabia quem era a Ana, mas achei melhor ficar calado. Devia ter sido alguma coisa de um ridículo estupendo. Se ele me contasse talvez eu não fosse capaz de conter o riso. E se eu me risse, naquela altura, isso seria o fim da nossa amizade.
-- O pior ainda não te disse -- confessei --, a acreditar no velho, ele também é capaz de falar.
-- Ele fala, o animal fala?! Não, isso já é demais!...
Encostou o jipe na berma da estrada, mantendo os faróis acesos, e saltou para o asfalto. Na mão direita segurava uma pistola.
-- Vou executar esse muadiê!...
Era a primeira vez que o via com uma arma. Saí do jipe em sobressalto:
-- É claro que não vais. O lagarto é meu.
Ele olhou para mim e percebi que não estava a brincar. O meu amigo tinha passado pela guerra. Dois anos no Cuíto Cuanavale.
-- O lagarto é meu -- disse-lhe --, deixa-me ser eu a tratar disso.
Tirei-lhe a pistola da mão, agarrei na caixa de sapatos onde estava Leopoldino e afastei-me alguns metros para o interior do mato. Os faróis do jipe iluminavam o capim seco, os altos cactos, o largo contorno de um embondeiro. Na noite imensa, límpida estrelada, só se escutava o cantar rouco de um grilo. Pousei a caixa no chão, apontei para ela e disparei três tiros. Quando o eco do último disparo se dispersou fez-se um fantástico silêncio. E então, subitamente, uma rajada de metralhadora, à minha esquerda, alvoroçou a noite. Fiquei um instante transido de pavor e depois voltei-me na direcção do jipe e comecei a correr. Atrás de mim, sobrepondo-se ao fragor do tiroteio, ouvi distintamente a gargalhada seca de Leopoldino. O meu amigo já estava ao volante:
-- Despacha-te muadiê, pouca sorte, parece que começaste uma guerra.
Enquanto mergulhávamos velozmente na noite, de luzes apagadas, ele voltou-se para mim:
-- Mataste o bicho?
Respondi com um grunhido. O que eu queria era sair dali.
-- Tinha de ser -- disse o meu amigo, e o sorriso dele brilhou na escuridão. -- O tipo sabia de mais!...

Fronteiras Perdidas (1999)

Nota - Uma obra-prima de humor e absurdo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

#12 - AGADE E NIMUR (Mário de Carvalho)

Havia em Agade uma porta imemorial e no frontão tinha escrito: «Porta em frente da qual se não colhe o trigo.»
Veio o rei e mandou cortar o trigo em frente da porta.
Em Agade havia um templo velho, repleto de oferendas. O rei profanou o santuário e tolheu ao templo as oferendas.
Corria em Agade uma rua estreita, por onde, há séculos, era vedado passar.
Transitou-a o rei com seu séquito, um dia, e outro, e outro, queimando perfumes.
Os deuses curam que os homens não rompam proibições, ainda que reis sejam. De modo que qualquer obscuro deus se viu movido a intervir.
Por isso, os povos da montanha, em suas peles de cabra, pegaram aljavas e arcos e seus arremessões e fundas, e vieram-se a Agade, em espessas coortes.
Na porta inscrita foi exibida a cabeça e membros rotos do rei. No templo se restauraram os ídolos de antanho. A antiga rua embargada se mostrou coalhada de muito sangue.
Das gentes de Agade só um escriba restou, e verteu no barro uma «Lamentação sobre a cidade de Agade».
Foi-se logo o escriba à cidade vizinha de Nimur, e sendo aí o rei falecido o fizeram rei, que era bom espelho de sageza.
Havia em Nimur um portão chapeado que, diziam, dava para a sétima esfera, e por onde nunca ninguém tinha entrado. O rei forçou o portão, no estrondo de um aríete, e mandou fabricar mil longas lanças, de duras, aguçadas pontas.
Havia em Nimur uma fonte de que era proibido beber. Veio o rei e bebeu por ela, ordenou que todos os da cidade bebessem com ele, e mandou que lhe fabricassem mil arcos e suas flechas e aljavas.
Atravessava Nimur uma ponte velha, fechada de correntes, por onde ninguém ousava passar. Passeou-se o rei por ela durante todo um dia, desfeitas as correntes, e mandou edificar, e mandou edificar logo duas altas muralhas e seis torres de cantaria talhada nas pedreiras longes do Oriente.
Das serranias vieram  então pastores em fortes mesnadas de guerra. Derribaram uma muralha e outra, mas quedaram-se ante a terceira, atravessados de lanças, farpeados de setas.
E voltaram vencidos a seus caminhos de montanha.
Um qualquer ignoto deus tombou desamparado, desfez-se de encontro às areias, frente a Nimur. Seu diadema de filigrana diluiu-se em finíssima poeira dourada.
Quem quer que passe os limites tem de antever as altas vindictas e prover o seu resguardo. Mas por cada limite franqueado há um deus que se despenha lá de cima.
Esta a lição aprendida e revelada pelo escriba feito rei de Nimur.
Aflora ela nos «Mil louvores à glória de Nimur», redigidos no barro por todos os escribas da cidade.


Contos da Sétima Esfera (1981)

Nota - «por cada limite franqueado há um deus que se despenha». Ser um escriba o agente, é preciso notar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Victória F., «Requerimento»

«Fui fazendo isto, porque não sou de me deixar estar, a permitir que o mundo me esfregue sal na grande ferida que sou.»


Elogio da Infertilidade (2018)

domingo, 13 de janeiro de 2019

António Alçada Baptista, «Uma vida melhor»


«Como não tinha tempo para despedir as chatices pagava aos cigarros para conversarem com elas.»


Uma vida Melhor (1984)

confrontações com Erskine Caldwell, «Ajoelhai ante o sol nascente»

«Enquanto voltava costas para se sentar sobre uma caixa vazia, junto da bomba de gasolina, Lonnie sentia um desejo irresistível de ter tão pouco medo de Arch Gunnard como Clem.» 


Antologia do Conto Moderno (1960) (tradução de Manuel Barbosa)