segunda-feira, 18 de setembro de 2017

#11 - O PRESÉPIO (D. João da Câmara)

Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa.
Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa!
Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!...
Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera a volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço.
É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de oiro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjar o lugar.
Com o seu examezinho de instrução primária, marçano de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador.
Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se haviam mostra de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero, mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer auréolas, que giravam como fogo de vistas pelas festas.
Ali estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces.
Os primeiros dias tinham passado muito lentos.
A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro haviam-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa.
Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe haviam batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. Chegou o Verão. As festas de São João e de São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. reviu nesses dias mais intensamente a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse uma quadras falando de estrelas e de flores.
A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixavam dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade.
Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior.
Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva. O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe.
-- Acorda, ralaço! -- gritava-lhe o patrão.
Estava a chegar o Natal.
Que lindo era o Natal lá na aldeia!
Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso.
Então o pequeno teve uma ideia.


Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa.
Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas.
Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação.
Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver.
Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.
Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio e, no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora.
Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal.
Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de quando em quando, revia-se na obra.
O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto.
Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como não o tinha doirado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma.
Aquele mês passou correndo.
Era a véspera do Natal. Às dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.
Que alegria estar só!
Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo principiou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se havia de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.
Deram onze e três quartos.
Ajoelhou.
Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação de sua vida triste.
Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinho se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes... Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão, muito atarefado, ia, vinha...
Meia-noite!
Acendeu os fósforos e ficou embasbacado!
Nunca vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a são José e a Nossa Senhora!
Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:


                                                                                            Andava nessas campinas,
                                                                                            Esta noite, um querubim.


Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abriu a porta, entrar na loja, chegar ao desvão.
Acordou-o do êxtase um pontapé.  
-- Isso!... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!
E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura.
O bruto continuava aos pontapés.
-- Vá!... Vá!
Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele...
Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.

Comentário. Um texto dickensiano, ou de como a boçalidade, como toda a força bruta que lhe assiste, acaba por desvanecer-se impotente ante o halo que fica a pairar no fim deste conto: apesar de tudo o Amor triunfa.


Contos do Natal (1909) / Gloria in Excelsis -- Histórias Portuguesas de Natal, edição de Vasco Graça Moura, 2003, pp. 75-79.

sábado, 20 de agosto de 2016

#10 - O CADÁVER DE JAMES JOYCE (José Luís Peixoto)

Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo, vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura, era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje, me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. A lógica, o absurdo da lógica e a lógica precisa, milimétrica, do absurdo, são para mim assuntos que me absorvem, como se fossem, de facto, a primeira regra da minha vida. Mas, como disse, era muito novo, e esse pânico não tinha ainda atingido as dimensões actuais que, juntamente como outros pânicos cansaços, acabarão por ser o meu fim. Nesse tempo, eu era o único leitor de mim próprio e ninguém esperava nada das minhas palavras. A vida era menos difícil, portanto. Eu considerava-me um grande escritor desconhecido e era quase feliz, porque fechava os olhos a muitas coisas.
No primeiro dia em que saí à rua, depois dessas semanas, trazia ainda no olhar o olhar das personagens e passeei-me por Lisboa, como se não conhecesse Lisboa, como se me admirasse com tudo. As horas dessa tarde muito fria de Janeiro passaram e eu passei com elas. Aos poucos, deixei de ser as personagens para ser o narrador: uma voz maior que eu, uma voz que tinha surgido do romance como uma voz da terra. Descrevi, para mim próprio, as paredes, os pombos a andarem devagar no chão, como se todos os pombos fossem uma criatura maior e que se amontoa e se estilhaça. Descrevi, para mim próprio, as pessoas a olharem-me e imaginei o que elas imaginavam de mim. Mas também aos poucos, o narrador saiu de mim, talvez assustado com o ridículo de ser um narrador a descrever mentiras dentro de uma pessoa, e voltei a ser o que sou: qualquer coisa absurda que procura uma lógica impossível e que se chama Zé Luís. No entanto, depois de duas semanas a observar palavras, depois de um ano a desenterrar palavras, eu era alguém que só podia fazer coisas grandiosas. Só essa ideia me parecia lógica. Entrei numa livraria do Chiado. Vi-me a entrar na livraria e imaginei: José Luís Peixoto entra numa livraria, onde ainda se ignora a importância das suas palavras. Creio que o narrador ainda devia andar dentro de mim, escondido em algum canto escuro.
Não sei como explicar. Tirei um exemplar do Ulisses da prateleira e comecei a ler. Nunca o tinha lido todo. Ainda não li. Não acredito que alguma vez o vá ler todo. No entanto, tirei um exemplar da prateleira e li dois parágrafos. Gostava de escrever assim. O efeito que aquela breve leitura teve em mim foi inesperado. Instantaneamente, lembrei-me de ter lido, havia alguns anos, numa enciclopédia da minha irmã, que o James Joyce estava enterrado em Zurique. Lembrei-me também que, na altura tinha acabado de ler The Dubliners e que senti algo de revolta. Na livraria, sem que os meus olhos vissem a livraria, imaginei-me, secretamente, um herói. Eu tinha escrito um dos maiores romances da história da literatura. Eu só podia fazer coisas grandiosas.
Em casa, guardei duas camisolas dentro de uma mochila e saí. Tinha dinheiro e fui para Santa Apolónia. Comprei um bilhete para Zurique. Não sabia que se podia ir para Zurique de comboio, mas fui informado de que o Sud-Express ia sair dentro de poucos minutos e que, assim que chegasse a França, devia mudar de comboio. Fui todo o caminho de pé no corredor. Assustava-me a ideia de não me conseguir controlar e de poder contar o meu plano a qualquer emigrante de Paris ou a qualquer francês que andasse a fazer um interrail e que partilhasse comigo o vagão. Fui sempre a olhar pela janela e, interrompido de vez em quando por revisores, pensei sempre que ia chegar a Zurique e que ia desenterrar o corpo do James Joyce e que ia levá-lo para Dublin. Donde nunca devia ter saído. Troquei de comboio e cheguei a Zurique.
O dia estava a acabar. Telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava no Rossio. Estava num telefone público da Suíça. Tenho uma licenciatura em alemão. Tenho um diploma carimbado que garante que sou licenciado em alemão. Debaixo do carimbo, falta dizer que foram quatro anos de cábulas e de ajudas por parte de alguns colegas mais caridosos. Mas, mesmo assim, o meu alemão básico chegou-me para alugar um quarto numa pensão pequena, pequena, minúscula, mesmo ao lado do cemitério. A senhora da recepção, com as mãos sobre os papéis de registo, virou os óculos na ponta do nariz quando lhe disse que fazia questão de ficar no quarto ínfimo, que tinha uma janela do tamanho de um isqueiro com vista para o cemitério: o branco das campas desenhado no negro, as formas das árvores esculpidas no negro.
Quando o sol nasceu, tinha as pernas dormentes. Desci para o pequeno-almoço; torradas e café com leite que a senhora da recepção me serviu contrariada. Comi devagar. Não tenho apetite de manhã. Esperei três cigarros até que abrissem o portão do cemitério. Eu e duas velhas fomos as primeiras pessoas a entrar. Tentei procurar a campa sozinho, mas perdi-me. Encontrei uma das velhas a trocar flores murchas de uma jarra e perguntei-lhe. James Joyce? Nunca ouvi falar. Não lhe expliquei. Há coisas que não vale a pena tentar explicar. Andei toda a manhã, às voltas no cemitério, a olhar para nomes, a olhar para datas. Por fim, era já hora de almoço, estava com fome e frio, encontrei a campa do James Joyce. Estava abandonada. Nenhuma mulher lhe ia trocar as flores murchas, não tinha flores. Tinha musgo à volta das letras. James Joyce escrito a musgo.
Voltei à pensão. A senhora da recepção assustou-se com a minha chegada. Assustou-se ainda mais quando lhe perguntei pelo almoço. Pão, duas salsichas fritas e dois ovos estrelados pela senhora da recepção com um avental de folhos. Saí para ir comprar uma picareta e uma pá. Tive que apontá-las com o dedo. Não sei dizer picareta em alemão. Fui para o meu quarto dormir e sonhar. Acordei a meio da noite. Acordei logo totalmente desperto, como se não tivesse acordado, como se não tivesse dormido. Agarrei a picareta, a pá e a mochila. Saí do quarto sem fazer barulho. Na rua vesti as duas camisolas que trazia na mochila. Estava muito frio. Subi para cima de um Mercedes que estava estacionado e saltei o muro do cemitério. Procurei o caminho que conhecia e fui directo à campa do James Joyce. Enfiei a ponta da picareta numa das juntas do mármore e fiz força, força, força. O mármore não se movia um único som de mármore a arrastar-se. Quando as minhas forças já desesperavam, fechei os olhos e, com toda a vontade dos meus braços e do meu corpo inteiro, ouvi o mármore a soltar-se. Comecei a cavar. A picareta e, depois, a pá. O som da picareta, e, depois, o som da pá. O meu entusiasmo a apressar-me. Depois, a picareta a acertar em algo. O tesouro. A pá a tirar a terra solta. As minhas mãos a tirarem a terra solta. A tampa do caixão partiu-se debaixo dos meus pés. Afastei pedaços de caixão Lá estava o James Joyce. Segurei-lhe o braço direito, a mão que escreveu o Ulisses, e os ossos separaram-se pelas juntas. Segurei-lhe o crânio: os olhos do James Joyce, o crânio onde nasceu o Ulisses. Olhei para o céu e não encontrei a lua. Algumas estrelas entre as nuvens. Na noite, senti-me grandioso e feliz. Guardei tudo o que me parecia pertencer ao James Joyce dentro da mochila. Os ossos, uns contra os outros, faziam um barulho brando. Saí da cova e comecei a tapá-la com pás cheias de terra. Animado pelo peso do James Joyce nas minhas costas, empurrei de novo a pedra sobre a campa. De manhã, estava na estação de comboios.
Sentado num vagão, levava a mochila sob o colo. Pensava que era revelador que o James Joyce, ele próprio, pesasse menos do que a maioria das edições do Ulisses, quando à passagem pela fronteira, o comboio abrandou e parou. Entrou um polícia, bigode, patilhas, e pediu-me o passaporte. Apontou para a mochila e perguntou; chocolates? Sorri. Saiu. Meio cigarro depois, o comboio continuou. A paisagem, as árvores despidas, as poças de água, deixavam-me pensar. Por vezes, as aldeias. Na pequena estação de uma aldeia cinzenta e verde, decidi sair. Entrei num café, conheci um senhor. Ofereceu-me um quarto, ofereceu-me trabalho a tratar de cinco vacas. Apaixonei-me pela filha do senhor. Guardava a mochila atrás de uma cómoda. Passava as noite, no quarto ao lado da filha do patrão, Sabine era o seu nome, a pensar nela e a sofrer por ela. Às vezes, retirava o James Joyce de dentro da mochila e estendia-o sobre a cama para não ganhar mofo. Passaram-se três meses de que não me orgulho.
Quando decidi ir-me embora, era já Primavera. Três das cinco vacas iam parir, mas eu já estava farto de amor não correspondido e Dublin esperava-me. De madrugada, dirigi-me à pequena estação e apanhei o primeiro comboio que passou em direcção a Paris. Troquei de comboio. Estava cansado. Mesmo James Joyce, tão leve, parecia-me demasiado pesado. Considerei ainda a hipótese de abandoná-lo num contentor do lixo de Paris, mas eu não sou daqueles que desistem. Enquanto tenho um resto de esforça, tenho um resto de esperança. Eu não sou daqueles que desistem. E cheguei a Calais. Os barcos estavam cheios e só podia seguir viagem no dia seguinte. Enganei um inglês. Roubei-lhe o bilhete e também lhe teria roubado a carteira e o relógio se me apetecesse, mas o bilhete bastava-me. Em Inglaterra viajei sempre de autocarro. Passei metade do tempo enjoado e metade do tempo a dormir, de boca aberta, tombado sobre o passageiro do lado, abraçado ao James Joyce. Em Londres, decidi apanhar um avião directo para Dublin. Estava muito cansado e muito sujo. Ainda cheirava a vaca. Tinha saudades das personagens do meu romance e vontade de telefonar à minha mãe e dizer-lhe que estava no Rossio, estando mesmo no Rossio.
Depois do check in, depois da mochila ter sido radiografada como bagagem de mão, depois de me terem avisado com uma piscadela de olho que não se podia viajar com comida, mas que desta vez passava, sentei-me numa das cadeiras da primeira classe. A hospedeira tirou-me uma palha do cabelo e serviu-me champanhe. Respirei. A centenas de metros de altura, abri pedacinho do fecho da mochila e olhei para o James Joyce. Confiei nele, já éramos amigos, pousei-o no meu assento e fui à casa de banho. Lavei a cara. Quando voltei, estavam dois miúdos a atirar o James Joyce um para o outro. Agarrei a mochila furioso e contive-me para não dar uma estalada ao miúdo. A mãe dele, sentada ao lado, acordou e disse: oh Sean. Apetecia-me chegar a Dublin. A aterragem foi suave.
As ruas, os pubs, as pessoas. Atravessei três pontes até encontrar um parque. No parque, caminhei até encontrar uma árvore que me agradasse. Era uma árvore grande, talvez um plátano. Entre as raízes, cavei com as mãos. Primeiro a relva, depois a terra. A noite crescia devagar na tarde. Passavam pessoas que me olhavam por um instante, mas todas desviavam o olhar. Quando não estava ninguém, nem nos caminhos do parque, nem atrás dos arbustos, enfiei o James Joyce, dentro da mochila, no buraco e cobri-o com terra e com uma camada de relva. Olhei por instantes para o sítio onde o deixei e considerei que tinha feito algo de bom. Levava uma falta no coração. Sentia pena de deixar o James Joyce. Na altura ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre falta de algo onde quer que esteja. Fui para Lisboa. Na noite seguinte, dormi já na minha cama, abraçado ao manuscrito do meu primeiro romance.





Nota - Um conto que, não sendo um primor de estilo, salva-se, e bem, pelo absurdo e pelo humor.


terça-feira, 19 de julho de 2016

#9 - NATAL DE CONSOADA (Manuel de Boaventura)

O Natal é a grande festa do mundo cristão.
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Em parte alguma de Portugal, a festa do Natal toma um aspecto tão sinceramente festivo e suavemente poético, como no Minho. Natal e Páscoa são festas puramente regionais: não há tristezas nesses dias, a não ser para a família dos ausentes e para aqueles que perderam algum ente querido. Então a alegria, é substituída pelas lágrimas consoladoras da saudade.
A consoada... Quando chega esse grande dia, de regozijo familiar, os que estão longe vêm procurar no lar de seus maiores, os pais, as esposas, os irmãos, os filhos... -- para se reunirem ao redor da mesa comum, no aconchegado banquete da «noite grande».
Sobre a vetusta mesa de castanho refulge a alva toalha de linho, que as mães e as filhas fiaram à lareira, em frígidas noites de invernia; e teceram, depois, em perfumadas manhãs de primavera, quando os homens, na azáfama das agras, suavam o pão de cada dia.
Sobre a nevada toalha, os bojudos pichéis do vinho verde, rubro e saltarelo, os copos reluzentes e os talheres a brilhar, como prata de lei.
Grandes travessas de bacalhau, com batatas farelentas e «tronchos» de hortaliça; o cheiroso arroz, que o polvo purpureou; os bolinhos; os mexidos perfumados a canela; o vinho quente, adoçado com mel; as castanhas, as nozes, os figos... -- ementa farta e sobejante, que atulha a mesa e acoberta a toalha. A abundância é a principal característica da Noite Boa de Natal.
Depois a alegria, a grande alegria, que campeia infrene! A mãe põe, no trafogueiro, o enorme canhoto de carvalho, que há-de sustentar o brasido, e arder toda a noite. As crianças galram e assam as pinhas mansas, para tirar os pinhões e jogar o rapa, e a «supetaina-somandaina».
Um diz: -- «Supetaina!»
Logo outro: -- «Somandaina!»
-- «Pernão ou pares?»
-- «Abre mão e dá-le ares.»
-- «Quatro pares...»
A lenga-lenga faz rir.
A carcaça das pinhas guarda-se, para os dias de trovoada.
Quando lampeja o fogo no Céu, e ribomba o trovão...
- S. Jerónimo! Santa Bárbara Virgem!
...vai para o lume uma pinha da noite santa, para afugentar o sarrisco...; e esconjura-se a trovoada:
- «O Senhor te guie,
p'ra onde não haja,
nem palha, nem grão,
nem alminha de cristão...»
O alcornoque de carvalho ou raízeiro de pinho, arde em labareda; aquece a cozinha e consola os corpos, porque lá fora cai codo branco... E quando os vivos recolherem aos catres, as alminhas dos defuntos da casa, virão, trémulas de pavor, da algidez da terra do adro, ou entanguidas pela neve, da jornada, desde o misterioso País da Verdade, aquecer-se ali, àquela mesma lareira, onde, tempos antes, quando o sangue lhes circulava nas veias e a vida enchia os seus corpos, agora desfeitos, tantas vezes se vingaram das intempéries dezembrinas.
Que saudades que isto faz! O raízeiro crepita, espirrando faúlhas de fogo para os pés das crianças, entretidas no debulho das pinhas e a joguillhar pinhões e nozes ao «par-e-pernão».
O pai e restantes convivas, sentados nas preguiceiras, rezadas as graças a Deus, contam histórias de mouras encantadas, e contos bíblicos, de quando Jesus era menino, e vivia na terra, entre os homens. A avó, já muito velhinta, corcovada, narra-os aos netos traquinas, com paciente carinho e bondade:
«Era uma vez...»
E segue o lindo contarilho. Pensa depois nos seus queridos mortos; o marido, que doze anos antes, numa noite como esta, estivera sentado naquele mesmo taburno, encostado à córa do forno, rezando ao Menino-Deus, com os netinhos sobre os joelhos; nos filhos queridos; no pai, na mãe e nos irmãos, já todos no Reino da Glória, e que não esperarão muito, que ela se lhes vá juntar. Quem sabe se chegará a outro Natal! Ah! não! Não chegará!
Dentro de si, vai um mundo de pensamentos, a correr à desfilada! Já mais de oitenta natais passaram por ela -- alegres uns, bem tristes, outros. O seu corpo mirrado de velhez e entorpecido pelo frio de tantos invernos, não chegará até às neves do futuro Natal. Estava ali, ainda viva, fitando aquele canhoto, que ardia com chama azulada, para aquecer as almas santas, dos que da casa se foram -- ora a gozarem da Bem-aventurança eterna.
Quase meia-noite. Tudo debandou. A velhinta vela, ainda, meio acordada, meio dormente. Começa o solilóquio com os mortos:
-- «António! Que triste é este Natal, sem ti! Teresinha! Que saudades, querida filha, que saudades! Aquece a tua alminha, menina, ao lume da nossa lareira. O teu lugar era aqui, ao meu lado... E tu, Manuel? E tu, João? Aconchegai-vos, filhos! Faz tanto frio lá fora!»
Quando for a sua vez -- quam sabe, se já no primeiro Natal -- a sua alma, se Deus o permitir, virá, também aquecer-se às cinzas daquele lar. Consola-a essa ideia. Está sendo pesada na terra: a morte libertá-la-á do peso dos anos e dar-lhe-á descanso na eternidade imensurável -- mistério que só Deus conhece.






Lapinhas do Natal, Braga, Editora Pax, 1964, pp. 25-31.
nota - Natal idílico, a que nem a pobreza endémica resistia. Só a morte, porém. Só a saudade dos mortos carrega a noite com os tons mais escuros, naquele Natal, em todos os Natais de qualquer família.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

#8 - D. QUITÉRIA DE CEDROS (Manuel Amaral)

De dia tinha havido umas réstias de sol mas, logo depois das cinco da tarde, a névoa amortalhou os montes com cinza.
Tinham-se aberto muitas pipas e assado muitas castanhas. O S. Martinho tinha sido festejado como mandava a tradição. O velho adágio No S. Martinho prova o teu vinho fora cumprido mais que escrupulosamente.

D. Quitéria levou o candeeiro para o quarto e começou a despir-se. A chuva caía miudinha e, por entre as vidraças, só se via névoa cinzenta. Até os choupos da leira mais próxima estavam afogados naquela cinza molhada. Já em trajes menores, deitou a cabeça para o corredor. Na cozinha havia luz. Maria das Dores, a filha mais velha, ainda costurava, com certeza. Era, dos três filhos que tinha, o único que amava verdadeiramente a casa e o trabalho, o único que se parecia com ela.
A mais nova, com a sua vaidade de vestidos e de luxos, estava já a amargar a vida. O Lopes, empregado do doutor Santos, que fugira com ela, com um olho no corpo bem feito e o outro na hipótese de mandar na quinta de Cedros, demonstrava-lhe todos os dias que os sonhos bonitos de andar bem vestida, de ter em casa coisas finas, mobília e rádio, tinham de ser alimentados com dinheiro.
Ela veio puxar pela parte do pai. Mas aquilo também pôs ponto final nos restos que a ligavam à quinta:
-- Agora não tens cá nada em casa! Cada mocho no seu souto...
Era a despedida definitiva.
Maria das Dores trabalhava todas as noites num enxoval que D. Quitéria achava inútil, pois nunca soubera de nenhum derriço a sério da filha. Bem que lhe tivessem arrastado a asa mas Dores sabia que não era nenhuma beleza e sentia que a sua futura herança era a ambição dos apaixonados. E escorraçava-os desabridamente, como quem se defende de uma ofensa.
Mas um instinto cego lançava-a para o enxoval. Já passava bem dos trinta e bem poucas esperanças teria de casar.
D. Quitéria olhava para ela e lembrava-se das duas irmãs, que já estavam no reino da verdade. Também elas tinham trabalhado sempre nos enxovais e morreram sem casar.
O pai era austero e em casa respeitavam-no cegamente. Era uma sentinela que todos os rapazes temiam nas festas. Sabiam que um braço dele valia por dois homens.
D. Quitéria, embora fosse a filha predilecta do velho Gomes, também nunca tinha conseguido namorar mais que poucos dias enquanto o pai foi vivo. O Zezinho do Cabo há muito que lhe deitava uns olhos em que lhe adivinhava ternuras mas, só depois do velho Gomes morrer, é que ele se atreveu a rondar-lhe a porta e a chegar-lhe à fala.
O Zé do Cabo tinha uma boa casa e uns bons campos e o casamento não era desvantajoso para nenhuma das partes, embora ele fosse um pouco mole, mais amigo das festas e da caça do que das terras.
Mas, ela, a Quitéria de Cedros, valia por dois homens, já o dizia o velho Gomes.
D. Quitéria passou realmente a dominar a casa. Era a patroa. Era dela que os criados recebiam ordens. Era sempre com ela que os compradores de vinhos se entendiam, mesmo antes do desastre de caça vitimar o marido.

Mas hoje D. Quitéria não adormecia. O dia tinha sido triste e ela andava com o cérebro sem energia, sem aquela força de comando que era o seu orgulho.
A luz estava mortiça no candeeiro. Quando olhou para um Cristo de parede, assaltou-lhe um pressentimento:
-- Oh! Ainda não rezei.
Rezou as velhas orações mas, contra o costume, as pálpebras continuavam levantadas, no cérebro cruzavam-se mil e um pensamentos e o coração sobressaltava-se em confusas apreensões.
Voltou a vestir a saia e o casaco e, vagarosamente, aproximou-se da cozinha.
Dores, com duas agulhas de cobre, fazia um casaco de lã. Ao lado estava uma carta aberta, donde saíam pontas de roupa interior, por estrear.
Sobressaltou-se ao dar com a mãe e um rubor tomou-lhe a cara.
-- Para que estás a perder tempo com essas coisas? Podias-te ir deitar.
A Dores franziu as sobrancelhas e começou a arrumar as coisas.
-- O teu irmão já veio?
Mas Dores estava ofendida. Não podia perdoar que a mãe a apanhasse de surpresa enquanto trabalhava no enxoval e, principalmente, que dissesse que estava a perder tempo.
-- Parece que a mãe não se lembra que dia é hoje. É o dia dele!
-- Que dizes?
-- Que a adega deve estar cheia de gente e que o Joaquim está a vomitar debaixo de alguma pipa.
A mãe retesou o corpo e os beiços premiram-se na cara vermelha de indignação.
D. Quitéria sabia que o filho era um desregrado, que assaltava a honra das filhas dos caseiros e que, nas fárreas e tibórnias, as suas bebedeiras eram célebres pelo número invulgar de canecas para as atingir.
Mas, com os sonhos que punha nele, com que o idealizava, esforçava-se por pensar que ele acabaria com aquela época de poucas vergonhas e bebedeiras, próprias da idade.
Ele deveria ser, finalmente, o dono de Cedros, aumentaria a herança com o celibato da Dores, a quinta ficaria intacta, haveria dinheiro no cofre para pagar a parte da mais nova e ele seria, assim, o Morgado de Cedros, com a consideração de todos, com a sua palavra a valer como notas de navio.
-- Desavergonhada! Tratas bem o teu irmão!
-- Se for mentira, a mãe verá. A chave não está cá na cozinha... É só ir ver!
A mãe hesitou. Os olhos faiscavam-lhe mas Dores desafiava-a com um sorriso de maldade:
-- É só ir ver!
D. Quitéria pegou no candeeiro e abriu a porta da cozinha. Com os socos, a longas passadas, atravessou o quinteiro. A filha seguia atrás.
A adega estava aberta. De dentro saíram vozes avinhadas:
-- É Quinzinho! Isso é que é ser valente! Mais uma caneca!
Quando ela entrou, o filho tombava sobre uma pipa e uma golfada de vinho sujava as aduelas.
D. Quitéria parou, enquanto os seus sonhos se debatiam com o que tinham diante dos olhos.
Atrás, a Dores tinha um sorriso zombeteiro e triste ao mesmo tempo.





Manuel Amaral, Terra Lavrada, Amarante, edição do Autor, 1953, pp., 5-9.
Nota - O tópico da matriarca é sempre interessante, mesmo que muito explorado. É a amargurada Dores, a figura que mais me impressiona neste conto.



terça-feira, 21 de junho de 2016

#7 - O CONCURSO (Miguel Barbosa)

Minha mulher acordou cedo. Dizia com ar ansioso:
-- Achas que estará doente? Terá dormido bem? Ontem vi-lhe os olhos tão vermelhos...
Como resposta, virei-me para o outro lado e tentei adormecer de novo. Ela afastou os lençóis, a tremer de frio. Apesar dos olhos fechados, seguia-lhe os gestos um a um. O costume. Parara em frente do berço. Ouvi-lhe o grito de aflição.
-- Não está cá!
Larguei uma praga e tapei a cabeça com o travesseiro. Não podia com aquela lulu de ossos moles e pernas atrofiadas de tanto andar ao colo. Mais me parecia um molusco do que um vertebrado. Desprezava-a por se ir deitar no berço que eu comprara nos primeiros tempos de casado, quando tinha planos de constituir uma enorme família. O vê-la no berço punha-me doente, sabia-me a demasiada ironia.
Minha mulher achou-a debaixo da cama e pôs-se a penteá-la demoradamente. Ficaria melhor assim ou com a franjinha na testa!... Rematou a obra da manhã com um lacinho vermelho ao pescoço.
-- Está um amor. Não achas, querido, que vamos ganhar?
Repliquei-lhe que, se os membros do júri fossem cães, não ganhávamos com toda a certeza. Levantei-me, atirei com a porta casa de banho e fechei-me por dentro. Lá vinha de novo a ideia do suborno. «Por que não me informava do nome dos membros do júri e usava de influências?...»
Estava dentro da banheira quando tocou a campainha da porta da rua. Adivinhei quem era. Ou a manucure para arranjar as unhas da cadela, ou a gorda vizinha, também concorrente, e que trazia alguma novidade. Verificou-se a segunda hipótese. Ouvia o ruído dos beijos. A gorda senhora lamentava-se. O seu fox-terrier, que tantas probabilidades tinha de ganhar, estava com dores de barriga.
Sentia certa alegria na voz de minha esposa.
-- Já experimentou as massagens com leite quente?
-- Sim. Até já chamei o veterinário.
-- Tinha tantas esperanças! E depois, nunca contei isto a ninguém, o Toby já não é nenhuma criança. Está a perder pelo...
Ardia em desejos de abrir a porta da casa de banho, atravessar nu a sala, e vir também dar à vizinha o meu apoio nestas horas más.
Partiu debulhada em lágrimas. Minha mulher apressou-se a queimar desinfectante, não fosse ela ter trazido consigo o gérmen da doença e contagiar a nossa cadela.
-- O grande concurso abriu em manhã de sol radiante. Chegámos meio ensonados -- não tínhamos dormido a vigiar a lulu -- ao parque do Jardim Zoológico.
Via o ar triste e aborrecido de centenas de cachorros, enjaulados, à espera da hora, ofendidos na sua dignidade. Tinham marcado o lugar da nossa cadela, que cheirava aflitivamente a perfume e a pó de arroz, entre dois enormes lobos de Alsácia. Minha mulher queria que eu fosse protestar perante o júri..
-- É um ultraje, dizia ela. Tenho medo de que a lulu, tão pequenina no meio de cães tão grandes, arranje algum complexo de inferioridade.
Recusei-me a partir, e ela foi apresentar as suas objecções. Reparei então num rafeiro, sarnoso, extra concurso, que passava em frente da jaula da lulu. Examinava-a com olhos meigos enquanto se coçava. Nem se atrevia a ladrar. Tinha o ar de quem contempla a mais inacessível das criaturas, um sonho que sabe de antemão irrealizável...
Começara o desfile. Passavam belezas em vestidos ultra-vaporosos, a sorrir perturbadormente ao júri.
Minha mulher regressava. Não conseguira nada e vinha furiosa. Perto de nós, um sujeito elegante batia no focinho de um cão de raça. Ia entrar a seguir. Erguia-lhe o pequeno coto, mas quando tirava a mão, o animal baixava teimosamente o pouco que lhe restava da cauda. Se não ganhar, dizia ele para uma vizinha, dou-lhe uma injecção e mato-o. Arranjo outro com mais possibilidades para o ano...
Minha mulher entrara finalmente. Os olhos do júri prendiam-se às suas ondulações. Nem sequer olhavam para a cadela. Tinha vontade de os esbofetear. A missão deles não era analisar as curvas da minha esposa, mas sim a beleza da lulu...
Anoitecia quando aquilo tudo acabou. Vencera o cão do sujeito elegante. O bicho ganhara, como prémio extra, o direito a mais um ano de vida.
Começou o retirar lento dos vencidos, cabeças baixas, orelhas murchas e cauda caída.
-- Deixa, querida, dizia minha mulher, não fiques triste. És a mais linda. Estes parvos é que não te souberam apreciar.
Juntei-me ao rafeiro de olhos meigos, que nos seguia silenciosamente. Abaixei-me e fiz-lhe uma festa. Sabia que ele queria constituir família. Tínhamos ambos o mesmo desejo irrealizável.





Miguel Barbosa, Retalhos da Vida, Lisboa, edição do Autor, 1955.

Nota - Uma dama sem vagabundo que lhe(s) sirva, ou a apologia do rafeirismo. Um belo final.