sábado, 20 de agosto de 2016

#10 - O CADÁVER DE JAMES JOYCE (José Luís Peixoto)

Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo, vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura, era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje, me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. A lógica, o absurdo da lógica e a lógica precisa, milimétrica, do absurdo, são para mim assuntos que me absorvem, como se fossem, de facto, a primeira regra da minha vida. Mas, como disse, era muito novo, e esse pânico não tinha ainda atingido as dimensões actuais que, juntamente como outros pânicos cansaços, acabarão por ser o meu fim. Nesse tempo, eu era o único leitor de mim próprio e ninguém esperava nada das minhas palavras. A vida era menos difícil, portanto. Eu considerava-me um grande escritor desconhecido e era quase feliz, porque fechava os olhos a muitas coisas.
No primeiro dia em que saí à rua, depois dessas semanas, trazia ainda no olhar o olhar das personagens e passeei-me por Lisboa, como se não conhecesse Lisboa, como se me admirasse com tudo. As horas dessa tarde muito fria de Janeiro passaram e eu passei com elas. Aos poucos, deixei de ser as personagens para ser o narrador: uma voz maior que eu, uma voz que tinha surgido do romance como uma voz da terra. Descrevi, para mim próprio, as paredes, os pombos a andarem devagar no chão, como se todos os pombos fossem uma criatura maior e que se amontoa e se estilhaça. Descrevi, para mim próprio, as pessoas a olharem-me e imaginei o que elas imaginavam de mim. Mas também aos poucos, o narrador saiu de mim, talvez assustado com o ridículo de ser um narrador a descrever mentiras dentro de uma pessoa, e voltei a ser o que sou: qualquer coisa absurda que procura uma lógica impossível e que se chama Zé Luís. No entanto, depois de duas semanas a observar palavras, depois de um ano a desenterrar palavras, eu era alguém que só podia fazer coisas grandiosas. Só essa ideia me parecia lógica. Entrei numa livraria do Chiado. Vi-me a entrar na livraria e imaginei: José Luís Peixoto entra numa livraria, onde ainda se ignora a importância das suas palavras. Creio que o narrador ainda devia andar dentro de mim, escondido em algum canto escuro.
Não sei como explicar. Tirei um exemplar do Ulisses da prateleira e comecei a ler. Nunca o tinha lido todo. Ainda não li. Não acredito que alguma vez o vá ler todo. No entanto, tirei um exemplar da prateleira e li dois parágrafos. Gostava de escrever assim. O efeito que aquela breve leitura teve em mim foi inesperado. Instantaneamente, lembrei-me de ter lido, havia alguns anos, numa enciclopédia da minha irmã, que o James Joyce estava enterrado em Zurique. Lembrei-me também que, na altura tinha acabado de ler The Dubliners e que senti algo de revolta. Na livraria, sem que os meus olhos vissem a livraria, imaginei-me, secretamente, um herói. Eu tinha escrito um dos maiores romances da história da literatura. Eu só podia fazer coisas grandiosas.
Em casa, guardei duas camisolas dentro de uma mochila e saí. Tinha dinheiro e fui para Santa Apolónia. Comprei um bilhete para Zurique. Não sabia que se podia ir para Zurique de comboio, mas fui informado de que o Sud-Express ia sair dentro de poucos minutos e que, assim que chegasse a França, devia mudar de comboio. Fui todo o caminho de pé no corredor. Assustava-me a ideia de não me conseguir controlar e de poder contar o meu plano a qualquer emigrante de Paris ou a qualquer francês que andasse a fazer um interrail e que partilhasse comigo o vagão. Fui sempre a olhar pela janela e, interrompido de vez em quando por revisores, pensei sempre que ia chegar a Zurique e que ia desenterrar o corpo do James Joyce e que ia levá-lo para Dublin. Donde nunca devia ter saído. Troquei de comboio e cheguei a Zurique.
O dia estava a acabar. Telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava no Rossio. Estava num telefone público da Suíça. Tenho uma licenciatura em alemão. Tenho um diploma carimbado que garante que sou licenciado em alemão. Debaixo do carimbo, falta dizer que foram quatro anos de cábulas e de ajudas por parte de alguns colegas mais caridosos. Mas, mesmo assim, o meu alemão básico chegou-me para alugar um quarto numa pensão pequena, pequena, minúscula, mesmo ao lado do cemitério. A senhora da recepção, com as mãos sobre os papéis de registo, virou os óculos na ponta do nariz quando lhe disse que fazia questão de ficar no quarto ínfimo, que tinha uma janela do tamanho de um isqueiro com vista para o cemitério: o branco das campas desenhado no negro, as formas das árvores esculpidas no negro.
Quando o sol nasceu, tinha as pernas dormentes. Desci para o pequeno-almoço; torradas e café com leite que a senhora da recepção me serviu contrariada. Comi devagar. Não tenho apetite de manhã. Esperei três cigarros até que abrissem o portão do cemitério. Eu e duas velhas fomos as primeiras pessoas a entrar. Tentei procurar a campa sozinho, mas perdi-me. Encontrei uma das velhas a trocar flores murchas de uma jarra e perguntei-lhe. James Joyce? Nunca ouvi falar. Não lhe expliquei. Há coisas que não vale a pena tentar explicar. Andei toda a manhã, às voltas no cemitério, a olhar para nomes, a olhar para datas. Por fim, era já hora de almoço, estava com fome e frio, encontrei a campa do James Joyce. Estava abandonada. Nenhuma mulher lhe ia trocar as flores murchas, não tinha flores. Tinha musgo à volta das letras. James Joyce escrito a musgo.
Voltei à pensão. A senhora da recepção assustou-se com a minha chegada. Assustou-se ainda mais quando lhe perguntei pelo almoço. Pão, duas salsichas fritas e dois ovos estrelados pela senhora da recepção com um avental de folhos. Saí para ir comprar uma picareta e uma pá. Tive que apontá-las com o dedo. Não sei dizer picareta em alemão. Fui para o meu quarto dormir e sonhar. Acordei a meio da noite. Acordei logo totalmente desperto, como se não tivesse acordado, como se não tivesse dormido. Agarrei a picareta, a pá e a mochila. Saí do quarto sem fazer barulho. Na rua vesti as duas camisolas que trazia na mochila. Estava muito frio. Subi para cima de um Mercedes que estava estacionado e saltei o muro do cemitério. Procurei o caminho que conhecia e fui directo à campa do James Joyce. Enfiei a ponta da picareta numa das juntas do mármore e fiz força, força, força. O mármore não se movia um único som de mármore a arrastar-se. Quando as minhas forças já desesperavam, fechei os olhos e, com toda a vontade dos meus braços e do meu corpo inteiro, ouvi o mármore a soltar-se. Comecei a cavar. A picareta e, depois, a pá. O som da picareta, e, depois, o som da pá. O meu entusiasmo a apressar-me. Depois, a picareta a acertar em algo. O tesouro. A pá a tirar a terra solta. As minhas mãos a tirarem a terra solta. A tampa do caixão partiu-se debaixo dos meus pés. Afastei pedaços de caixão Lá estava o James Joyce. Segurei-lhe o braço direito, a mão que escreveu o Ulisses, e os ossos separaram-se pelas juntas. Segurei-lhe o crânio: os olhos do James Joyce, o crânio onde nasceu o Ulisses. Olhei para o céu e não encontrei a lua. Algumas estrelas entre as nuvens. Na noite, senti-me grandioso e feliz. Guardei tudo o que me parecia pertencer ao James Joyce dentro da mochila. Os ossos, uns contra os outros, faziam um barulho brando. Saí da cova e comecei a tapá-la com pás cheias de terra. Animado pelo peso do James Joyce nas minhas costas, empurrei de novo a pedra sobre a campa. De manhã, estava na estação de comboios.
Sentado num vagão, levava a mochila sob o colo. Pensava que era revelador que o James Joyce, ele próprio, pesasse menos do que a maioria das edições do Ulisses, quando à passagem pela fronteira, o comboio abrandou e parou. Entrou um polícia, bigode, patilhas, e pediu-me o passaporte. Apontou para a mochila e perguntou; chocolates? Sorri. Saiu. Meio cigarro depois, o comboio continuou. A paisagem, as árvores despidas, as poças de água, deixavam-me pensar. Por vezes, as aldeias. Na pequena estação de uma aldeia cinzenta e verde, decidi sair. Entrei num café, conheci um senhor. Ofereceu-me um quarto, ofereceu-me trabalho a tratar de cinco vacas. Apaixonei-me pela filha do senhor. Guardava a mochila atrás de uma cómoda. Passava as noite, no quarto ao lado da filha do patrão, Sabine era o seu nome, a pensar nela e a sofrer por ela. Às vezes, retirava o James Joyce de dentro da mochila e estendia-o sobre a cama para não ganhar mofo. Passaram-se três meses de que não me orgulho.
Quando decidi ir-me embora, era já Primavera. Três das cinco vacas iam parir, mas eu já estava farto de amor não correspondido e Dublin esperava-me. De madrugada, dirigi-me à pequena estação e apanhei o primeiro comboio que passou em direcção a Paris. Troquei de comboio. Estava cansado. Mesmo James Joyce, tão leve, parecia-me demasiado pesado. Considerei ainda a hipótese de abandoná-lo num contentor do lixo de Paris, mas eu não sou daqueles que desistem. Enquanto tenho um resto de esforça, tenho um resto de esperança. Eu não sou daqueles que desistem. E cheguei a Calais. Os barcos estavam cheios e só podia seguir viagem no dia seguinte. Enganei um inglês. Roubei-lhe o bilhete e também lhe teria roubado a carteira e o relógio se me apetecesse, mas o bilhete bastava-me. Em Inglaterra viajei sempre de autocarro. Passei metade do tempo enjoado e metade do tempo a dormir, de boca aberta, tombado sobre o passageiro do lado, abraçado ao James Joyce. Em Londres, decidi apanhar um avião directo para Dublin. Estava muito cansado e muito sujo. Ainda cheirava a vaca. Tinha saudades das personagens do meu romance e vontade de telefonar à minha mãe e dizer-lhe que estava no Rossio, estando mesmo no Rossio.
Depois do check in, depois da mochila ter sido radiografada como bagagem de mão, depois de me terem avisado com uma piscadela de olho que não se podia viajar com comida, mas que desta vez passava, sentei-me numa das cadeiras da primeira classe. A hospedeira tirou-me uma palha do cabelo e serviu-me champanhe. Respirei. A centenas de metros de altura, abri pedacinho do fecho da mochila e olhei para o James Joyce. Confiei nele, já éramos amigos, pousei-o no meu assento e fui à casa de banho. Lavei a cara. Quando voltei, estavam dois miúdos a atirar o James Joyce um para o outro. Agarrei a mochila furioso e contive-me para não dar uma estalada ao miúdo. A mãe dele, sentada ao lado, acordou e disse: oh Sean. Apetecia-me chegar a Dublin. A aterragem foi suave.
As ruas, os pubs, as pessoas. Atravessei três pontes até encontrar um parque. No parque, caminhei até encontrar uma árvore que me agradasse. Era uma árvore grande, talvez um plátano. Entre as raízes, cavei com as mãos. Primeiro a relva, depois a terra. A noite crescia devagar na tarde. Passavam pessoas que me olhavam por um instante, mas todas desviavam o olhar. Quando não estava ninguém, nem nos caminhos do parque, nem atrás dos arbustos, enfiei o James Joyce, dentro da mochila, no buraco e cobri-o com terra e com uma camada de relva. Olhei por instantes para o sítio onde o deixei e considerei que tinha feito algo de bom. Levava uma falta no coração. Sentia pena de deixar o James Joyce. Na altura ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre falta de algo onde quer que esteja. Fui para Lisboa. Na noite seguinte, dormi já na minha cama, abraçado ao manuscrito do meu primeiro romance.

Nota - Um conto que, não sendo um primor de estilo, salva-se, e bem, pelo absurdo e pelo humor.


terça-feira, 19 de julho de 2016

#9 - NATAL DE CONSOADA (Manuel de Boaventura)

O NATAL é a grande festa do mundo cristão.

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Em parte alguma de Portugal, a festa do Natal toma um aspecto tão sinceramente festivo e suavemente poético, como no Minho. Natal e Páscoa são festas puramente regionais: não há tristezas nesses dias, a não ser para a família dos ausentes e para aqueles que perderam algum ente querido. Então a alegria, é substituída pelas lágrimas consoladoras da saudade.
A consoada... Quando chega esse grande dia, de regozijo familiar, os que estão longe vêm procurar no lar de seus maiores, os pais, as esposas, os irmãos, os filhos... -- para se reunirem ao redor da mesa comum, no aconchegado banquete da «noite grande».
Sobre a vetusta mesa de castanho refulge a alva toalha de linho, que as mães e as filhas fiaram à lareira, em frígidas noites de invernia; e teceram, depois, em perfumadas manhãs de primavera, quando os homens, na azáfama das agras, suavam o pão de cada dia.
Sobre a nevada toalha, os bojudos pichéis do vinho verde, rubro e saltarelo, os copos reluzentes e os talheres a brilhar, como prata de lei.
Grandes travessas de bacalhau, com batatas farelentas e «tronchos» de hortaliça; o cheiroso arroz, que o polvo purpureou; os bolinhos; os mexidos perfumados a canela; o vinho quente, adoçado com mel; as castanhas, as nozes, os figos... -- ementa farta e sobejante, que atulha a mesa e acoberta a toalha. A abundância é a principal característica da Noite Boa de Natal.
Depois a alegria, a grande alegria, que campeia infrene! A mãe põe, no trafogueiro, o enorme canhoto de carvalho, que há-de sustentar o brasido, e arder toda a noite. As crianças galram e assam as pinhas mansas, para tirar os pinhões e jogar o rapa, e a «supetaina-somandaina».

Um diz: -- «Supetaina!»
Logo outro: -- «Somandaina!»
-- «Pernão ou pares?»
-- «Abre mão e dá-le ares.»
-- «Quatro pares...»

A lenga-lenga faz rir.
A carcaça das pinhas guarda-se, para os dias de trovoada.
Quando lampeja o fogo no Céu, e ribomba o trovão...

-- S. Jerónimo! Santa Bárbara Virgem!

...vai para o lume uma pinha da noite santa, para afugentar o sarrisco...; e esconjura-se a trovoada:

-- «O Senhor te guie,
p'ra onde não haja,
nem palha, nem grão,
nem alminha de cristão...»

O alcornoque de carvalho ou raízeiro de pinho, arde em labareda; aquece a cozinha e consola os corpos, porque lá fora cai codo branco... E quando os vivos recolherem aos catres, as alminhas dos defuntos da casa, virão, trémulas de pavor, da algidez da terra do adro, ou entanguidas pela neve, da jornada, desde o misterioso País da Verdade, aquecer-se ali, àquela mesma lareira, onde, tempos antes, quando o sangue lhes circulava nas veias e a vida enchia os seus corpos, agora desfeitos, tantas vezes se vingaram das intempéries dezembrinas.
Que saudades que isto faz! O raízeiro crepita, espirrando faúlhas de fogo para os pés das crianças, entretidas no debulho das pinhas e a joguillhar pinhões e nozes ao «par-e-pernão».
O pai e restantes convivas, sentados nas preguiceiras, rezadas as graças a Deus, contam histórias de mouras encantadas, e contos bíblicos, de quando Jesus era menino, e vivia na terra, entre os homens. A avó, já muito velhinta, corcovada, narra-os aos netos traquinas, com paciente carinho e bondade:

«Era uma vez...»

E segue o lindo contarilho. Pensa depois nos seus queridos mortos; o marido, que doze anos antes, numa noite como esta, estivera sentado naquele mesmo taburno, encostado à córa do forno, rezando ao Menino-Deus, com os netinhos sobre os joelhos; nos filhos queridos; no pai, na mãe e nos irmãos, já todos no Reino da Glória, e que não esperarão muito, que ela se lhes vá juntar. Quem sabe se chegará a outro Natal! Ah! não! Não chegará!
Dentro de si, vai um mundo de pensamentos, a correr à desfilada! Já mais de oitenta natais passaram por ela -- alegres uns, bem tristes, outros. O seu corpo mirrado de velhez e entorpecido pelo frio de tantos invernos, não chegará até às neves do futuro Natal. Estava ali, ainda viva, fitando aquele canhoto, que ardia com chama azulada, para aquecer as almas santas, dos que da casa se foram -- ora a gozarem da Bem-aventurança eterna.
Quase meia-noite. Tudo debandou. A velhinta vela, ainda, meio acordada, meio dormente. Começa o solilóquio com os mortos:
-- «António! Que triste é este Natal, sem ti! Teresinha! Que saudades, querida filha, que saudades! Aquece a tua alminha, menina, ao lume da nossa lareira. O teu lugar era aqui, ao meu lado... E tu, Manuel? E tu, João? Aconchegai-vos, filhos! Faz tanto frio lá fora!»
Quando for a sua vez -- quam sabe, se já no primeiro Natal -- a sua alma, se Deus o permitir, virá, também aquecer-se às cinzas daquele lar. Consola-a essa ideia. Está sendo pesada na terra: a morte libertá-la-á do peso dos anos e dar-lhe-á descanso na eternidade imensurável -- mistério que só Deus conhece.


Lapinhas do Natal, Braga, Editora Pax, 1964

nota - Natal idílico, a que nem a pobreza endémica resistia. Só a morte, porém. Só a saudade dos mortos carrega a noite com os tons mais escuros, naquele Natal, em todos os Natais de qualquer família.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

#8 - D. QUITÉRIA DE CEDROS (Manuel Amaral)

De dia tinha havido umas réstias de sol mas, logo depois das cinco da tarde, a névoa amortalhou os montes com cinza.
Tinham-se aberto muitas pipas e assado muitas castanhas. O S. Martinho tinha sido festejado como mandava a tradição. O velho adágio No S. Martinho prova o teu vinho fora cumprido mais que escrupulosamente.

D. Quitéria levou o candeeiro para o quarto e começou a despir-se. A chuva caía miudinha e, por entre as vidraças, só se via névoa cinzenta. Até os choupos da leira mais próxima estavam afogados naquela cinza molhada. Já em trajes menores, deitou a cabeça para o corredor. Na cozinha havia luz. Maria das Dores, a filha mais velha, ainda costurava, com certeza. Era, dos três filhos que tinha, o único que amava verdadeiramente a casa e o trabalho, o único que se parecia com ela.
A mais nova, com a sua vaidade de vestidos e de luxos, estava já a amargar a vida. O Lopes, empregado do doutor Santos, que fugira com ela, com um olho no corpo bem feito e o outro na hipótese de mandar na quinta de Cedros, demonstrava-lhe todos os dias que os sonhos bonitos de andar bem vestida, de ter em casa coisas finas, mobília e rádio, tinham de ser alimentados com dinheiro.
Ela veio puxar pela parte do pai. Mas aquilo também pôs ponto final nos restos que a ligavam à quinta:
-- Agora não tens cá nada em casa! Cada mocho no seu souto...
Era a despedida definitiva.
Maria das Dores trabalhava todas as noites num enxoval que D. Quitéria achava inútil, pois nunca soubera de nenhum derriço a sério da filha. Bem que lhe tivessem arrastado a asa mas Dores sabia que não era nenhuma beleza e sentia que a sua futura herança era a ambição dos apaixonados. E escorraçava-os desabridamente, como quem se defende de uma ofensa.
Mas um instinto cego lançava-a para o enxoval. Já passava bem dos trinta e bem poucas esperanças teria de casar.
D. Quitéria olhava para ela e lembrava-se das duas irmãs, que já estavam no reino da verdade. Também elas tinham trabalhado sempre nos enxovais e morreram sem casar.
O pai era austero e em casa respeitavam-no cegamente. Era uma sentinela que todos os rapazes temiam nas festas. Sabiam que um braço dele valia por dois homens.
D. Quitéria, embora fosse a filha predilecta do velho Gomes, também nunca tinha conseguido namorar mais que poucos dias enquanto o pai foi vivo. O Zezinho do Cabo há muito que lhe deitava uns olhos em que lhe adivinhava ternuras mas, só depois do velho Gomes morrer, é que ele se atreveu a rondar-lhe a porta e a chegar-lhe à fala.
O Zé do Cabo tinha uma boa casa e uns bons campos e o casamento não era desvantajoso para nenhuma das partes, embora ele fosse um pouco mole, mais amigo das festas e da caça do que das terras.
Mas, ela, a Quitéria de Cedros, valia por dois homens, já o dizia o velho Gomes.
D. Quitéria passou realmente a dominar a casa. Era a patroa. Era dela que os criados recebiam ordens. Era sempre com ela que os compradores de vinhos se entendiam, mesmo antes do desastre de caça vitimar o marido.

Mas hoje D. Quitéria não adormecia. O dia tinha sido triste e ela andava com o cérebro sem energia, sem aquela força de comando que era o seu orgulho.
A luz estava mortiça no candeeiro. Quando olhou para um Cristo de parede, assaltou-lhe um pressentimento:
-- Oh! Ainda não rezei.
Rezou as velhas orações mas, contra o costume, as pálpebras continuavam levantadas, no cérebro cruzavam-se mil e um pensamentos e o coração sobressaltava-se em confusas apreensões.
Voltou a vestir a saia e o casaco e, vagarosamente, aproximou-se da cozinha.
Dores, com duas agulhas de cobre, fazia um casaco de lã. Ao lado estava uma carta aberta, donde saíam pontas de roupa interior, por estrear.
Sobressaltou-se ao dar com a mãe e um rubor tomou-lhe a cara.
-- Para que estás a perder tempo com essas coisas? Podias-te ir deitar.
A Dores franziu as sobrancelhas e começou a arrumar as coisas.
-- O teu irmão já veio?
Mas Dores estava ofendida. Não podia perdoar que a mãe a apanhasse de surpresa enquanto trabalhava no enxoval e, principalmente, que dissesse que estava a perder tempo.
-- Parece que a mãe não se lembra que dia é hoje. É o dia dele!
-- Que dizes?
-- Que adega deve estar cheia de gente e que o Joaquim está a vomitar debaixo de alguma pipa.
A mãe retesou o corpo e os beiços premiram-se na cara vermelha de indignação.
D. Quitéria sabia que o filho era um desregrado, que assaltava a honra das filhas dos caseiros e que, nas fárreas e tibórnias, as suas bebedeiras eram célebres pelo número invulgar de canecas para as atingir.
Mas, com os sonhos que punha nele, com que o idealizava, esforçava-se por pensar que ele acabaria com aquela época de poucas vergonhas e bebedeiras, próprias da idade.
Ele deveria ser, finalmente, o dono de Cedros, aumentaria a herança com o celibato da Dores, a quinta ficaria intacta, haveria dinheiro no cofre para pagar a parte da mais nova e ele seria, assim, o Morgado de Cedros, com a consideração de todos, com a sua palavra a valer como notas de navio.
-- Desavergonhada! Tratas bem o teu irmão!
-- Se for mentira, a mãe verá. A chave não está cá na cozinha... É só ir ver!
A mãe hesitou. Os olhos faiscavam-lhe mas Dores desafiava-a com um sorriso de maldade:
-- É só ir ver!
D. Quitéria pegou no candeeiro e abriu a porta da cozinha. Com os socos, a longas passadas, atravessou o quinteiro. A filha seguia atrás.
A adega estava aberta. De dentro saíram vozes avinhadas:
-- É Quinzinho! Isso é que é ser valente! Mais uma caneca!
Quando ela entrou, o filho tombava sobre uma pipa e uma golfada de vinho sujava as aduelas.
D. Quitéria parou, enquanto os seus sonhos se debatiam com o que tinham diante dos olhos.
Atrás, a Dores tinha um sorrizo zombeteiro e triste ao mesmo tempo.

Manuel Amaral, Terra Lavrada, Amarante, edição do Autor, 1953. 

Nota - O tópico da matriarca é sempre interessante, mesmo que muito explorado. É a amargurada Dores, a figura que mais me impressiona neste conto.



terça-feira, 21 de junho de 2016

#7 - O CONCURSO (Miguel Barbosa)

Minha mulher acordou cedo. Dizia com ar ansioso:
-- Achas que estará doente? Terá dormido bem? Ontem vi-lhe os olhos tão vermelhos...
Como resposta, virei-me para o outro lado e tentei adormecer de novo. Ela afastou os lençóis, a tremer de frio. Apesar dos olhos fechados, seguia-lhe os gestos um a um. O costume. Parara em frente do berço. Ouvi-lhe o grito de aflição.
-- Não está cá!
Larguei uma praga e tapei a cabeça com o travesseiro. Não podia com aquela lulu de ossos moles e pernas atrofiadas de tanto andar ao colo. Mais me parecia um molusco do que um vertebrado. Desprezava-a por se ir deitar no berço que eu comprara nos primeiros tempos de casado, quando tinha planos de constituir uma enorme família. O vê-la no berço punha-me doente, sabia-me a demasiada ironia.
Minha mulher achou-a debaixo da cama e pôs-se a penteá-la demoradamente. Ficaria melhor assim ou com a franjinha na testa!... Rematou a obra da manhã com um lacinho vermelho ao pescoço.
-- Está um amor. Não achas, querido, que vamos ganhar?
Repliquei-lhe que, se os membros do júri fossem cães, não ganhávamos com toda a certeza. Levantei-me, atirei com a porta casa de banho e fechei-me por dentro. Lá vinha de novo a ideia do suborno. «Por que não me informava do nome dos membros do júri e usava de influências?...»
Estava dentro da banheira quando tocou a campainha da porta da rua. Adivinhei quem era. Ou a manucure para arranjar as unhas da cadela, ou a gorda vizinha, também concorrente, e que trazia alguma novidade. Verificou-se a segunda hipótese. Ouvia o ruído dos beijos. A gorda senhora lamentava-se. O seu fox-terrier, que tantas probabilidades tinha de ganhar, estava com dores de barriga.
Sentia certa alegria na voz de minha esposa.
-- Já experimentou as massagens com leite quente?
-- Sim. Até já chamei o veterinário.
-- Tinha tantas esperanças! E depois, nunca contei isto a ninguém, o Toby já não é nenhuma criança. Está a perder pelo...
Ardia em desejos de abrir a porta da casa de banho, atravessar nu a sala, e vir também dar à vizinha o meu apoio nestas horas más.
Partiu debulhada em lágrimas. Minha mulher apressou-se a queimar desinfectante, não fosse ela ter trazido consigo o gérmen da doença e contagiar a nossa cadela.
-- O grande concurso abriu em manhã de sol radiante. Chegámos meio ensonados -- não tínhamos dormido a vigiar a lulu -- ao parque do Jardim Zoológico.
Via o ar triste e aborrecido de centenas de cachorros, enjaulados, à espera da hora, ofendidos na sua dignidade. Tinham marcado o lugar da nossa cadela, que cheirava aflitivamente a perfume e a pó de arroz, entre dois enormes lobos de Alsácia. Minha mulher queria que eu fosse protestar perante o júri..
-- É um ultraje, dizia ela. Tenho medo de que a lulu, tão pequenina no meio de cães tão grandes, arranje algum complexo de inferioridade.
Recusei-me a partir, e ela foi apresentar as suas objecções. Reparei então num rafeiro, sarnoso, extra concurso, que passava em frente da jaula da lulu. Examinava-a com olhos meigos enquanto se coçava. Nem se atrevia a ladrar. Tinha o ar de quem contempla a mais inacessível das criaturas, um sonho que sabe de antemão irrealizável...
Começara o desfile. Passavam belezas em vestidos ultra-vaporosos, a sorrir perturbadormente ao júri.
Minha mulher regressava. Não conseguira nada e vinha furiosa. Perto de nós, um sujeito elegante batia no focinho de um cão de raça. Ia entrar a seguir. Erguia-lhe o pequeno coto, mas quando tirava a mão, o animal baixava teimosamente o pouco que lhe restava da cauda. Se não ganhar, dizia ele para uma vizinha, dou-lhe uma injecção e mato-o. Arranjo outro com mais possibilidades para o ano...
Minha mulher entrara finalmente. Os olhos do júri prendiam-se às suas ondulações. Nem sequer olhavam para a cadela. Tinha vontade de os esbofetear. A missão deles não era analisar as curvas da minha esposa, mas sim a beleza da lulu...
Anoitecia quando aquilo tudo acabou. Vencera o cão do sujeito elegante. O bicho ganhara, como prémio extra, o direito a mais um ano de vida.
Começou o retirar lento dos vencidos, cabeças baixas, orelhas murchas e cauda caída.
-- Deixa, querida, dizia minha mulher, não fiques triste. És a mais linda. Estes parvos é que não te souberam apreciar.
Juntei-me ao rafeiro de olhos meigos, que nos seguia silenciosamente. Abaixei-me e fiz-lhe uma festa. Sabia que ele queria constituir família. Tínhamos ambos o mesmo desejo irrealizável.

Miguel Barbosa, Retalhos da Vida, Lisboa, edição do Autor, 1955.

Nota - Uma dama sem vagabundo que lhe(s) sirva, ou a apologia do rafeirismo. Um belo final.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

#6 - A MOSCA VERDE (Natália Nunes)

Não sabia como, mas o que é certo é que o petiz fora desencantar aquilo ao fundo do armário. E quando ele apareceu a mostrar-lha nas mãozitas, a mãe corou como no dia em que para sempre a tinha escondido.
Para sempre, talvez não. Não tinha sido com esse pensamento que, numa precipitação, ela a ocultara no armário no momento em que a criada lhe veio anunciar uma cliente. E muitas vezes depois ainda se lembarara dela, da mosca verde. Simplesmente não tivera mais coragem de ir buscá-la ao esconderijo, ao canto do segredo. Também nunca fora capaz de a destruir e, pelo contrário, sentia até uma espécie de alegria muito íntima de saber que ela estava ali ao seu dispor, que existia...
Mas, com o tempo, acabara por esquecê-la. Havia muitos anos que já nem uma só vez tal recordação passara pelo seu espírito.
-- Mãe, olha que linda! Dás-me a mosca verde, dás?
O filho, sentado no chão, procurava endireitar o arame das asas, desdobrar o tule amarrotado, e enquanto as suas mãozitas insistiam, traças gordas e sedosas escapavam-se do corpo da mosca verde e corriam pelo chão em busca de outro abrigo...
Na alma da mulher era como se qualquer coisa se fosse desdobrando também e crescesse e procurasse tomar uma forma ampla expansiva e perfeita e, ao mesmo tempo, logo o que quer que era voltava a enroscar-se, a contrair-se e a apertar-se num novelo de pudor e de amargura...
«Tinha sido numa tarde, ao pegar num pedaço de moirée de reflexos acobreados, que ela se lembrara da mosca que poisara um dia no telhado da casa, junto do peitoril da janela. O que tinha encontrado de extraordinário naquela mosca, fora a sua cor verde-vermelha e, depois, o que ela fizera quando abriu as asas! Abriu-as, e elas pareciam pintadas de todas as cores do arco-íris! Abriu-as, e começou na sua frente um bailado de volteios magnéticos, ora calmos e estáticos, ora vertiginosos, alucinatórios...
Pois nessa tarde -- já estava casada e já era modista de chapéus e até já tinha o primeiro filho -- bastara-lhe reparar nos reflexos da seda para imediatamente se ver transportada à sua adolescência. E outra vez chegou aquele calor do sol a bater no telhado, o zumbido das moscas, o viço da salsa no caixotinho de madeira, as borboletas brancas e as amarelas -- flores que tinham asas! -- as formigas pequeninas -- donas de casas escondidas sob as telhas -- e o azul do céu e a prata do rio... e a mosca verde a dançar numa fogueira de lumes irisados... E, com isto, o contentamento perfeito de se sentir viva que foi o seu naquela hora, a vertigem reveladora de uma beleza desconhecida que lhe trazia a mosca verde e, por fim, o ímpeto que ela teve de saltar pela janela e de ir para cima do telhado voltejar e adejar, rodopiar e ascender como as borboletas, a mosca verde e a tremulina do rio lá em baixo...»
Mas isso tinha sido havia já tanto tempo! Doze anos! Tivera realmente aquela hora de fantasia numa tarde de recordações... E ainda dessa vez ela sentira novamente o mesmo impulso de movimentar o corpo pelo espaço em movimentos rítmicos de harmonia! Então, já era uma mulher entregue a uma casa, e portanto, aquilo seria uma vergonha... Ela podia lá pôr-se a bailar pelas salas, envolvida nos tules e nas sedas que serviam para os chapéus!
Mas tinha sido depois que, num entusiasmo, pegara nos tecidos vaporosos e começara a dar forma à mosca, à maravilhosa mosca verde, mensageira de uma beleza que de longe a chamava e lhe pedia o estender dos braços, o ritmar dos passos, o estremecer do corpo, o fugir da alma...
E agora o filho a perguntar-lhe se podia ir brincar com a mosca verde...
-- Não, Carlinhos, isso não é para brincar.
-- Então isto não é um brinquedo, mãezinha?
Que tinha ela para responder à criança? Não seria verdade que aquilo fora uma espécie de brinquedo na sua vida? Que representava na sua existência de mulher modesta e quase ignorante, senão uma brincadeira, um motivo de inebriantes sonhos escondidos, aquele impulso de bailar sobre o telhado, e a mosca verde que o recordava? Só sabia que fizera muitos chapéus sem gostar de fazer chapéus. Desde os treze anos -- a idade em que ela vira a mosca verde -- que os pais, seus pobres pais, a tinham posto logo de aprendiza. Depois, aos vinte, casara com um caixeiro que passara a gerente de uma loja de fazendas. E quando vieram os filhos uns atrás dos outros, até os chapéus deixou! A vida era tão monótona, tão insípida, parada e descolorida! E tão confusa também! Porque fizera ela afinal a mosca verde? Porque tivera aquele desejo alado de ir bailar para cima do telhado? Além de tudo mais, a vida era estranha, cheia de enigmas, mas que nem os próprios viventes podiam desvendar...
E na sua vida havia alguma coisa que ela não percebia... Uma coisa que, naquele instante em que o filho mirava e remexia no corpo da mosca verde, lhe trazia uma vergonha imensa de si própria e uma vontade melancòlicamente amarga de chorar...

De A Mosca Verde e Outros Contos (1957); antologiado por João Pedro de Andrade em os Melhores Contos Portugueses,Lisboa, Portugália, 1959.

Comentário - Um prodígio de sugestão. Uma perplexidade: e uma 'mosca verde'. É como se o interdito (estamos em 1957) o fosse ainda mais pelo elemento repulsivo que é a 'mosca', embora aqui transmutada em símbolo de liberdade, essa liberdade de "voltear" que as mulheres não tinham.


segunda-feira, 13 de junho de 2016

#5 - O AMOR DAS MÃES (Brito Camacho)

Dizia o médico que não era nada; mas a criança piorava a olhos vistos, a febre queimando-lhe as carninhas tenras, e uma tosse incessante, muito funda, parecendo que lhe rasgava o peito, como se fosse um lâmina! Era o seu único filho, a compensação duma longa vida de trabalho e dores, a esperança dum futuro longínquo, em que havia clarões de gozo. Nem ela sabia como aquilo fora. De repente, como se o tocara um bafejo da peste, o pequeno deixou-se-lhe cair no colo, a encolher-se como quem sente frio, a tiritar como quem tem medo, e logo aquela maldita tosse entrou a rasgar-lhe o peito, como se fosse um punhal, ao mesmo tempo que lhe martelava a cabecinha loira, como sobre uma bigorna.
Enquanto não chegava o médico, fora ela renovar todas as flores do seu oratório, acendendo muitas vezes à Senhora do Rosário, sua madrinha de baptismo, perante a qual ajoelhava todos os dias, com muita fé e devoção. Pedia-lhe agora a vida do seu filho, a salvação do seu Toneco, que ali estava ardendo em febre, a tosse rasgando-lhe o peito, como se fosse um punhal, e nas faces redondinhas umas grandes chapas vermelhas, como dois gigantescos pingos de lacre. Parecia-lhe que a sua Madrinha descerrava os lábios, a dizer-lhe boas palavras, e, como fechasse os olhos, num grande movimento de concentração, ia jurar que tinha sentido sobre a sua cabeça pendida, a mãozinha branca da Santa, a significar-lhe que tivesse esperança.
Dizia o médico que não era nada; e efectivamente desaparecera aquela febre que escaldava o seu Toneco, como num banho de enxofre derretido; cessara aquela maldita tosse que lhe rasgava o peito, como se fosse um punhal, e das faces emagrecidas tinham-se apagado aquelas chapas vermelhas, que eram como dois grande pingos de lacre, ou duas gotas de sangue, muito quente e muito vivo. Aquilo não era nada; o sofrimento cessara... porque também cessara a vida.
Apagou as velas do oratório e, quando atirava para o quintal as flores e a sua Madrinha, pareceu-lhe que se descerravam os lábios da Santa, como num gesto de súplica. Fechou a janela, com força, e, deixando cair os olhos, cheios de lágrimas, sobre o pequenino leito vazio, ficou-se a considerar a impossibilidade de terem crenças as mães que perdem os filhos.

Brito Camacho, Contos e Sátiras, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1929.

Nota - Líder político republicano histórico (a União Republicana ou Partido Unionista), em contraponto ao Partido Democrático de Afonso Costa e ao Evolucionista, de António José de Almeida. Talvez o mais interessante dos três, por menos conhecido).  Escritor de obra vasta e, como é hábito, negligenciada,  este seu conto duma pietà que não se aceita tal, pode muito bem ter sido um retalho de vida do médico que ele também foi.

domingo, 12 de junho de 2016

#4 - REMORSO (António Botto)

O céu de súbito pôs-se negro e o vento à solta, parecia querer derrubar montes, castelos e vidas. -- Eduardo, meu filho! gritou a mãe. E o pequeno que deixara de brincar, cego pela poeira e assustadíssimo pelo brusco desaparecimento da luz do sol, deitou a correr para casa. Batia-lhe de frente a ventania dificultando-lhe a corrida. Um remoinho de folhas secas ergueu-se, descompassado. Eduardo, chegou. -- Mas, vens a tremer, meu filho? -- Sim, minha mãe, tenho frio. E com efeito nessa manhã suavíssima de outono o vento fez-se cortante como nos dias baços, chuvosos, e doentios de Janeiro. Eduardo, a pouco e pouco, ia ficando tranquilo. Entretanto, o vento, numa lamúria desgrenhava as árvores, partindo-as, e a chuva, torrencial, dava-nos a impressão de alagar o Universo. Os relâmpagos iluminavam a terra e o céu. A casa estremecia e algumas telhas abalavam como flechas pelos ares. -- Não tenhas medo, meu filho. Deus protege o nosso ninho. Eduardo, então, desatou a chorar, e por mais que a mãe lhe perguntasse a causa daquele choro, não respondia, e sempre a chorar, lembrava-se, com certeza, do ninho de passarinhos que destruíra nessa manhã.

Os Contos de António Botto, 7.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.

Nota - Um relampejar extremamente conseguido, em concisão e dramatismo.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

#3 - VILA D'ARCOS (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Vila d'Arcos fica ao Norte, um pouco para Leste, numa região de montanhas. É uma cidade de província e pequena com ruas empedradas em torno da catedral enorme como um navio de eternas viagens. As suas casas antigas -- nobres mesmo quando pobres -- são proporcionadas com justeza desde o degrau da escada até ao quadrado da janela, desde a balaustrada da varanda até à superfície da parede de granito sem reboco onde só a pedra de armas com arruelas, grifos e leões é grande demais sobre os ferros e as madeiras desconjuntadas da porta; como se no mundo em que estamos nada importasse, nem o frio do granito, nem a estreiteza sombria dos quartos, nem a pobreza monótona dos dias, mas só importasse a nobreza que mostramos à luz e que é o projecto da nossa alma.
É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.
Os carros gemem ao longo das ruas empedradas. Passam poucos homens e rápidas mulheres vestidas de preto e em Maio as roseiras florescem nos muros que o Inverno cobriu de musgo. Por trás da portada verde da pequena janela da casa de esquina uma mulher de olhos agudos, muito juntos e castanhos, vê tudo, sábia e arguta, terrivelmente atenta, como se o seu olhar lesse e amparasse o desacontecer das coisas. Há jardins imprevistos, mais subtis e complexos do que o imaginável, onde crescem altas magnólias, com grandes flores brancas de pétalas profundas e largas, macias e espessas e onde a água de prata que irrompe da boca dos golfinhos de pedra cai nos pequenos tanques oitavados. Jardins de buxo, camélias e violetas perfumados de contemplação e paixão, de esquecimento e silêncio. Jardins docemente abandonados a uma solidão dançada pelas brisas, enquanto um longo sussurro de adeus acena de folha em folha nos ramos mais altos das árvores. Jardins onde reconhecemos que a nossa condição é não saber. É não poder jamais encontrar a unidade. E encontrar a unidade seria acordar.

1972

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984.

Nota - Magistral na concisão e na precisão de cada palavra; uma poética aberta a leituras sobre leituras, alegoria da vida e sobrevida esperada.


terça-feira, 7 de junho de 2016

#2 - AS MÃOS (Júlio Dantas)



Maria Júlia acordou em sobressalto. O coração batia-lhe com força. Tinha a testa inundada de suor e frio. A boca sabia-lhe a sangue. Fez um esforço intelectual para reconhecer onde estava. Na escuridão, sentou-se na cama, escutou, tacteou. As suas mãos encontraram uma massa morna, gelatinosa, arquejante. Era um homem. Era o seu companheiro de acaso naquela noite. Na torre de S. Paulo bateram as três da madrugada. Um cheiro acre a palha e a bafo sufocou-a. Dormia, mais uma vez, na hospedaria da Rua do Carvalho, tão conhecida já dos seus dois anos de miséria. O calor viscoso daquele corpo fê-la estremecer; sentiu crispar-se-lhe a pele num movimento instintivo de repugnância. Quem seria aquele homem? Mal tivera tempo de o ver. Deixara-lhe a vaga impressão dum casacão amarelo, duma voz rouca, duma barba hirsuta e grisalha, duns braços possantes que a tinham sacudido, apertado, calcado. Ficou uns minutos na treva, a ouvi-lo respirar. Era o ronco brutal e pacífico dum animal que dorme. Imóvel, a respiração quase suspensa, Maria Júlia esperou, com a resignação das abandonadas, que clareasse a manhã. Os lençóis de estopa ardiam-lhe na pele. Zumbiam-lhe os ouvidos. Quis adormecer. Não pôde. Passavam-lhe pela cabeça, num tropel, os horrores da sua vida inteira. Reviveu toda a sua infância aos pontapés; o abandono, o asilo, o hospital, a fome; a mãe morta, com as veias abertas, numa poça de sangue; o pai embarcado para o Brasil quando ela tinha sete anos; os vizinhos a gritarem-lhe no pátio: -- «Manuel da Cruz, tenha dó da criança, que é sua filha!»; -- e na escuridão, na imobilidade, no silêncio, adivinhando cada vez mais vivo, mais mordente o calor daquele corpo desconhecido, Maria Júlia sentia as lágrimas a escaldarem-lhe a cara, o peito a arquejar-lhe com força, e toda a cama tremia já do arranco dos seus soluços. A obscuridade oprimia-a; a cabeça andava-lhe à roda; vacilou, numa vertigem; acendeu a luz. O homem dormia serenamente, de costas, a barba empastada de suor, o arcaboiço largo arfando numa camisola velha de mescla azul, a mão direita espalmada sobre o peito. Maria Júlia levantou a vela, debruçou-se, observou-o -- estremeceu. Os olhos fixaram-se-lhe, redondos de pavor, naquela mão espessa, maciça, enorme, queimada de tabaco, eriçada de pêlos ruivos,  onde brilhava um anel de prata. Cambaleou. Dominou-se, para não gritar. Tinha conhecido, na sua infância, umas mãos assim. A tremer, aproximou a luz da cara do homem -- e olhou-o, e fitou-o ansiosamente. Uma expressão de dúvida horrível crispou-lhe as feições. Seria ele? Não seria ele? Num lampejo, pensou em tudo -- em sacudi-lo, em acordá-lo, em fugir, em gritar, em esmigalhar a cabeça de encontro às paredes. Num esforço de todas as suas reminiscências infantis, olhou ainda, uma vez mais, aquela mão musculosa, ruiva, felpuda, possante como uma pata de fera. Queria saber, queria ter a certeza. Atirou-se para os pés da cama. O sangue ardia-lhe nas faces. Perdida, ofegante, travou das roupas do homem -- revolveu-as, rebuscou-as, despedaçou-as. Achou uma carta, um sobrescrito com um nome. Abriu os olhos, fitou esse papel mudo onde estava escrita a sua sentença. Não sabia ler. Numa angústia, num desespero, sustendo a respiração, calçou-se, vestiu-se, atou o lenço, embrulhou-se no xaile -- e, com os dedos fincados na carta, desceu a escada de roldão. Era madrugada. Uma lufada de ar fresco bateu-lhe na cara. Na rua, a luz azulada da manhã alastrava como uma névoa. Maria Júlia correu a um polícia, que cabeceava encostada a um candeeiro ainda aceso, e pálida, opressa, mal podendo falar, pediu-lhe que lesse o nome escrito naquele papel. O guarda encarou-a, viu a carta e leu:
-- Manuel da Cruz.
Diante dele, Maria Júlia caiu sem um grito, como um corpo morto.

De Mulheres (1916); antologiado por João Pedro de Andrade em os Melhores Contos Portugueses,Lisboa, Portugália, 1959.

Nota - Conto de um naturalismo já tardio, mas nem por isso mais artificioso, com fatal e esperável desenlace. Gosto do ritmo da prosa, períodos curtos, jornalísticos. Muito boa a descrição do brutal, mas pacificado, Manuel da Cruz.


#1 - O ADEUS AOS FEIJÕES VERDES (Sarah Adamopoulos)

Um dia mudou tudo. Ela enchia-lhe a vida de sonhos e recebia on the road em troca. Ele enchia-lhe a vida de loucura e recebia aventura em troca. Era mais ou menos assim. Era fair enough. Era bom. Era partir. Ela gostava disso. De partir. Partia por vocação. O problema era quando o caminho chegava ao fim. Mesmo quando a estrada continuava. O fim do caminho era quando ele decidia que o melhor era transportar os sonhos para casa. O problema era que ele não sabia o que fazer com eles em casa. Por isso, havia sempre um dia que ele os empilhava em cima dos livros  e ela os deitava então para o lixo. Ela deitava os sonhos fora para que eles não ficassem a apanhar pó. É que mesmo que ele limpasse o pó e os acariciasse relembrando os dias em que os resgatara, de nada servia porque ela não gostava de os ver amontoados entre livros, catálogos de exposições e objectos vários a amarelecer.

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Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Vou fazer-te um filho. Mas eu não quero um filho. Mas eu preciso dum filho. Então manda vir. Mas eu quero um filho teu. Ou contigo. Ou qualquer coisa assim. Eu quero um filho. Então faz um. Mas um filho não se faz sozinho. Pois não. Faz-se com uma mulher que quer ter um filho. Dá-me um filho. Não. Então ele começou a beber. Quer dizer, a beber mais do que o habitual.. Bebia vodka pura gelada. Quando ela chegava, punha uma voz e uns trejeitos de Jack Nicholson e perguntava-lhe se era ela ou a cona dela que o tinha ido visitar. E depois começou a pintar filhos. Pegava em telas minúsculas e desenhava uma espécie de feijões verdes, ou camarões, ou talvez fosse mais parecido com cavalos marinhos. O atelier ficou cheio de telinhas, com aqueles filhos em começo de gestação. Parecem uns feijões verdes. mas não são verdes. pois não, são pretos. Pois, mas é que têm a forma dos feijões verdes. São os meus embriões. Só têm oito semanas. Adeus, vou-me embora. Não vás. Fica. Porquê? Porque eu gostava que ficasses. Adeus. Adeus! / Não afastes os teus olhos / dos meus !

Sarah Adamopoulos, A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 1997.

Nota - Retrato desapiedado e irónico dum impasse conjugal. Gosto desta escrita desenvolta e rápida, mas nunca superficial, a mulher por cima.