segunda-feira, 27 de junho de 2016

#8 - D. QUITÉRIA DE CEDROS (Manuel Amaral)

De dia tinha havido umas réstias de sol mas, logo depois das cinco da tarde, a névoa amortalhou os montes com cinza.
Tinham-se aberto muitas pipas e assado muitas castanhas. O S. Martinho tinha sido festejado como mandava a tradição. O velho adágio No S. Martinho prova o teu vinho fora cumprido mais que escrupulosamente.

D. Quitéria levou o candeeiro para o quarto e começou a despir-se. A chuva caía miudinha e, por entre as vidraças, só se via névoa cinzenta. Até os choupos da leira mais próxima estavam afogados naquela cinza molhada. Já em trajes menores, deitou a cabeça para o corredor. Na cozinha havia luz. Maria das Dores, a filha mais velha, ainda costurava, com certeza. Era, dos três filhos que tinha, o único que amava verdadeiramente a casa e o trabalho, o único que se parecia com ela.
A mais nova, com a sua vaidade de vestidos e de luxos, estava já a amargar a vida. O Lopes, empregado do doutor Santos, que fugira com ela, com um olho no corpo bem feito e o outro na hipótese de mandar na quinta de Cedros, demonstrava-lhe todos os dias que os sonhos bonitos de andar bem vestida, de ter em casa coisas finas, mobília e rádio, tinham de ser alimentados com dinheiro.
Ela veio puxar pela parte do pai. Mas aquilo também pôs ponto final nos restos que a ligavam à quinta:
-- Agora não tens cá nada em casa! Cada mocho no seu souto...
Era a despedida definitiva.
Maria das Dores trabalhava todas as noites num enxoval que D. Quitéria achava inútil, pois nunca soubera de nenhum derriço a sério da filha. Bem que lhe tivessem arrastado a asa mas Dores sabia que não era nenhuma beleza e sentia que a sua futura herança era a ambição dos apaixonados. E escorraçava-os desabridamente, como quem se defende de uma ofensa.
Mas um instinto cego lançava-a para o enxoval. Já passava bem dos trinta e bem poucas esperanças teria de casar.
D. Quitéria olhava para ela e lembrava-se das duas irmãs, que já estavam no reino da verdade. Também elas tinham trabalhado sempre nos enxovais e morreram sem casar.
O pai era austero e em casa respeitavam-no cegamente. Era uma sentinela que todos os rapazes temiam nas festas. Sabiam que um braço dele valia por dois homens.
D. Quitéria, embora fosse a filha predilecta do velho Gomes, também nunca tinha conseguido namorar mais que poucos dias enquanto o pai foi vivo. O Zezinho do Cabo há muito que lhe deitava uns olhos em que lhe adivinhava ternuras mas, só depois do velho Gomes morrer, é que ele se atreveu a rondar-lhe a porta e a chegar-lhe à fala.
O Zé do Cabo tinha uma boa casa e uns bons campos e o casamento não era desvantajoso para nenhuma das partes, embora ele fosse um pouco mole, mais amigo das festas e da caça do que das terras.
Mas, ela, a Quitéria de Cedros, valia por dois homens, já o dizia o velho Gomes.
D. Quitéria passou realmente a dominar a casa. Era a patroa. Era dela que os criados recebiam ordens. Era sempre com ela que os compradores de vinhos se entendiam, mesmo antes do desastre de caça vitimar o marido.

Mas hoje D. Quitéria não adormecia. O dia tinha sido triste e ela andava com o cérebro sem energia, sem aquela força de comando que era o seu orgulho.
A luz estava mortiça no candeeiro. Quando olhou para um Cristo de parede, assaltou-lhe um pressentimento:
-- Oh! Ainda não rezei.
Rezou as velhas orações mas, contra o costume, as pálpebras continuavam levantadas, no cérebro cruzavam-se mil e um pensamentos e o coração sobressaltava-se em confusas apreensões.
Voltou a vestir a saia e o casaco e, vagarosamente, aproximou-se da cozinha.
Dores, com duas agulhas de cobre, fazia um casaco de lã. Ao lado estava uma carta aberta, donde saíam pontas de roupa interior, por estrear.
Sobressaltou-se ao dar com a mãe e um rubor tomou-lhe a cara.
-- Para que estás a perder tempo com essas coisas? Podias-te ir deitar.
A Dores franziu as sobrancelhas e começou a arrumar as coisas.
-- O teu irmão já veio?
Mas Dores estava ofendida. Não podia perdoar que a mãe a apanhasse de surpresa enquanto trabalhava no enxoval e, principalmente, que dissesse que estava a perder tempo.
-- Parece que a mãe não se lembra que dia é hoje. É o dia dele!
-- Que dizes?
-- Que a adega deve estar cheia de gente e que o Joaquim está a vomitar debaixo de alguma pipa.
A mãe retesou o corpo e os beiços premiram-se na cara vermelha de indignação.
D. Quitéria sabia que o filho era um desregrado, que assaltava a honra das filhas dos caseiros e que, nas fárreas e tibórnias, as suas bebedeiras eram célebres pelo número invulgar de canecas para as atingir.
Mas, com os sonhos que punha nele, com que o idealizava, esforçava-se por pensar que ele acabaria com aquela época de poucas vergonhas e bebedeiras, próprias da idade.
Ele deveria ser, finalmente, o dono de Cedros, aumentaria a herança com o celibato da Dores, a quinta ficaria intacta, haveria dinheiro no cofre para pagar a parte da mais nova e ele seria, assim, o Morgado de Cedros, com a consideração de todos, com a sua palavra a valer como notas de navio.
-- Desavergonhada! Tratas bem o teu irmão!
-- Se for mentira, a mãe verá. A chave não está cá na cozinha... É só ir ver!
A mãe hesitou. Os olhos faiscavam-lhe mas Dores desafiava-a com um sorriso de maldade:
-- É só ir ver!
D. Quitéria pegou no candeeiro e abriu a porta da cozinha. Com os socos, a longas passadas, atravessou o quinteiro. A filha seguia atrás.
A adega estava aberta. De dentro saíram vozes avinhadas:
-- É Quinzinho! Isso é que é ser valente! Mais uma caneca!
Quando ela entrou, o filho tombava sobre uma pipa e uma golfada de vinho sujava as aduelas.
D. Quitéria parou, enquanto os seus sonhos se debatiam com o que tinham diante dos olhos.
Atrás, a Dores tinha um sorriso zombeteiro e triste ao mesmo tempo.





Manuel Amaral, Terra Lavrada, Amarante, edição do Autor, 1953, pp., 5-9.
Nota - O tópico da matriarca é sempre interessante, mesmo que muito explorado. É a amargurada Dores, a figura que mais me impressiona neste conto.



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